Capítulo Quindecim

— Estás aqui porque te quero resistente a quaisquer coisas, sobre quaisquer situações. Pensei, regido por uma obstinação, que te tutelaria suficientemente. Preservar-te do que julguei lesivo à tua integridade, e, permitir apenas que minha perversão te maneasse, fora mais uma errônea escolha. – Silêncio — Agora terás a honra de ouvir algo sobre teu Mestre. – Estou olhando para ela e ela pode sentir, pois, volta-se a mim com sua face melancólica; o mútuo avistar se perpetua por minutos. 

— Há cinco anos, envolvi-me com Saphihr. Não sabia de sua origem, sequer seu nome. O desejo de Saphihr era ser possuída como escrava por uma única noite. Concedi-a esta noite. Desta, diferente do que fora augurado, emergiram outras tantas que se perduraram por três meses. Quando, pela última vez, estava a sua espera, Saphihr, acompanhada de uma criança em seu colo, veio ao meu encontro. Ela, de maneira prófuga, entrou a casa que me pertencia, seu filho pranteava e ambos estavam lanceados. Saphihr contou-me que seu cônjuge havia descoberto a infidelidade e que, para castigá-la, professou assassinar seu filho. Em defesa da criança, Saphihr afrontou o homem e, na primeira oportunidade, ela fugiu. Por confiar em mim, diante do que vivíamos, decidiu obsecrar minha ajuda. 

Perplexa, Sublime apenas me ouvia com cautela, quase não piscava; seu corpo sequer se movimentava. 

— Ordenei que Saphihr fosse para meu quarto e cuidasse de seu filho. Ela o fez. Dez minutos depois, a porta de entrada de minha casa é arrasada n’um golpe de ira cavalar, como era previsto. Mantenho meu controle, vejo o homem iracundo e seu ódio pelo olhar manifestando-se vívido, animalesco; quando me fitou, a lava de suas veias tornou-se rochas ígneas extrusivas. O homem era membro de ØĒHZĨÐ, confraria que eu frequentava diariamente há um ano. – Silêncio. 

— Ao vislumbrar minha imagem, o homem abaixou sua guarda e se retirou em silêncio, certamente por saber que sua reputação estaria em jogo caso ousasse algo contra mim. No entanto, naquele ínterim, mesmo diante a evasão, eu soube, ele se vingaria. Por imprudência não te blindei desta ameaça. Agora, tu estás aqui para ser ensinada, para ter força, para tornar-se indestrutível. E eu, para matá-lo. 

Os olhos de minha posse estão de todo abertos, em sua fronte a surpresa, o medo, e talvez um pouco de aflição. O que preserva a circunspecção em meu semblante é o anelo de fazer com que Sublime compreenda o que exijo dela neste momento de nossa relação. 

— Matá-lo? – ela questiona hesitante. 

— Não como fantasias, menina. Quero solver de uma vez por todas a discórdia que nascera entre este mísero e eu, para tal, a morte em si não é um caminho adequado. – Aproximo-me de Sublime. — Quero fazê-lo sofrer, de forma lenta e desmedida, por tudo o que fizera contigo e com Saphihr. 

— Eu não... não quero vê-lo, não quero conhecer sua face... eu quero voltar para nossa casa, Mestre, não me imponha... 

— Eu não imponho nada, Sublime Le Blanc, nem que estejas aqui, tampouco que estejas ao meu lado. Se estiveres, entretanto, terás de viver sob meu querer. – Sublime levanta-se, sua respiração está agitada. 

— Então, para permanecer como tua submissa eu terei de enfrentar este homem? Diga-me se isto não é impor algo, Stephen! – Quando nota o seu desaforo, a postura que se tornara ereta e inatingível há segundos, reprimiu-se ao temor e ao arrependimento. Meu silêncio a desafia e seu olhar não ousa topar com o meu. 

— A quem pertences? – questiono sereno. 

— A ti... – ela hesita. 

— Olha-me! – ordeno — A quem pertences? 

 A ti, Mestre. 

— Tua resposta me insatisfaz. – Aproximo-me dela. — Para ser minha, para pertencer-me, é preciso absoluta gana pelo autoaprimoramento, é preciso coragem, é preciso confiança. – Cesso minhas palavras por alguns minutos. 

— Me ensinaste a ser digna de ser tua, Mestre. Eu... apenas... eu não consigo encarar novamente a dor d’outrora... Arde-me o imo só pela sutil imaginação de um futuro sob a presença daquele... monstro... – Silêncio. — Tu não estavas lá... – Silêncio. Sublime envolve-se em seus próprios braços e se perde na memória. Sento-me na cama, seguro o pescoço de minha peça e direciono-a aos meus pés; ela senta-se ao chão e abraça minhas pernas. 

— Eu sei de tua dor – profiro enquanto ouço-a lamuriar. — Reconheço minha responsabilidade por ela e, agora, não permitirei nenhum outro erro meu te atingir. 

— Saphihr deve ter sofrido tanto quanto eu... como pode alguém jurar morte a uma criança? – Respiro profundamente porque a docilidade e empatia de Sublime é-me um deleite. Contorno seu pescoço outra vez, levanto-a e ergo-me. 

— Ouça atentamente, tudo o que aprenderes aqui sobre BDSM estará sempre abaixo do princípio que agora pronunciarei: Meu Mestre sobre-excede todo conhecimento mundano e, este, só me é vital para meu próprio autoaprimoramento de acordo com a vontade de meu Mestre. – Silêncio — Repita o princípio. 

— Meu Mestre sobre-excede todo conhecimento mundano e, este, só me é vital para meu próprio autoaprimoramento de acordo com a vontade de meu Mestre. – Sua voz é fraca, um sussurro de sujeição; seus olhos lacrimejam. 

— Bom... – Solto-a, ela respira apressada. Afasto-me. — Todos aqui vivem um mundo pré-configurado; cerimônias, tradições e ritos que os tornam vulneráveis à ignorância. – Olho-a. — Imitam uns aos outros, são pouco originais. Vivem comandados pela maledicência ininterrupta, disputam a razão absoluta, polemizam por estulto desejo. São supérfluos, portanto. Eis a fonte de meu egresso. – Silêncio — São como insetos que fazem insuportável ruído, expõem-se e disseminam suas medianidades; tudo isso estará visível aos teus olhos durante a estadia em Insrher. Pelo que já viveste ao meu lado, apreenderás perfeitamente o que digo a partir de tua própria experiência. 

— Posso indagá-lo algo, Mestre? – Gesticulo para dá-la concessão. — E se eu não conseguir enfrentá-lo, e se eu... me abater? És meu Mestre, deste-me sabedoria desde o início, às vezes, todavia, questiono se ainda sou digna de ti, se um dia de fato fui... Tenho tanto medo... sempre me envolvi n’uma sombra de obscuridade e solidão... às vezes, em teus braços, imersa na dor, eu enfraquecia... eu duvidava... e tanto duvidei que por pequenos segundos pensei em deixar-te... 

— Toda a tua dúvida desequilibrada, teu temor, teu medo e tua fraqueza é responsabilidade minha. Tomo a culpa em minhas mãos por cada centímetro de tua obscuridade e solidão. Não mais. Atente-se a isso. Eu não mais deixarei lacunas para a permanência desta atmosfera umbrática em teu ser. – Toco-a, toco-a em suas pálpebras. 

— Mestre... – Ela está extasiada pelo toque. — Eu sinto, quando te ouço, que posso alcançar o horizonte... – Ela abre seus olhos — Gostaria de manter em meu âmago esta certeza que me toma agora. 

 Só há uma certeza, Sublime: tens uma essência no cerne de teu corpo e espírito, tal esteve contigo desde sempre e a partir de tuas escolhas foi tomando forma, ela sempre guiará os teus passos; se tiveres consciência disso, qualquer desequilíbrio cessará. Nem mesmo a morte é tão certa quanto a essência de ser; apoie-se nisso. 

— Já foste perdido e incerto? Já viveste o desequilíbrio e a desordem? – ela indaga após ampla mudez. 

— Sim, não se nasce sendo Mestre, torna-se um. Ainda que haja uma inclinação desde a infância, uma única escolha ou uma única vivência pode modificá-la quando dela não se tem consciência. 

— Vejo-te tanto como inalcançável; correto em todos os aspectos, controlado, consciente de seus erros e de suas glórias... nem todos são assim, não é? Alguns querem apenas ferir, têm gana por fazer quaisquer outros como degraus de uma interminável escada egocêntrica. Alguns vivem para a superficialidade, como disseste, nada extraordinário ou lídimo. Pouco conheço dos homens, mas sinto que é desta forma que são... em sua maioria... 

— Não nos cabe condená-los por suas subjetividades medíocres; o que profiro neste ínterim serve apenas para elucidar-te quem sou e o que penso, assim preencherei as lacunas de teu abismo. – Silêncio — Conhecerás muito mais sobre os homens e de fato chegarás às mesmas conclusões. Todavia, não remoa a estupidez d’outrem, aprenda a não ser igual e alimente sempre os teus princípios e sentidos. 

— Nutro grande admiração por ti, Mestre. Acredito no que pronuncias. Sinto que estou diferente, sinto que te ouço mais do que outrora em um passado confuso... Estou disposta, Mestre, estou fidedignamente disposta. 

— Tome teu tempo, reflita e ouça; pouco fale, pense e busque o saber. Quando, a partir disso, sentir-se em elo à tua essência, dir-me-á sobre a tua disposição novamente; a disposição de enfrentar o animal que a feriu, a disposição para continuar me servindo e a disposição para servir a si mesma. 

— A mim mesma? 

— Sim – respondo. Sei que essa liberdade a confunde, contudo, para revigorá-la de poder e força, é imprescindível um novo nível de alvedrio. — Procure serenar agora, utilize de teu tempo para a reflexão e o descanso. Trancarei a porta, estarás segura até meu retorno que se dará próximo ao crepúsculo. Neste aposento há tudo o que é fundamental para teu organismo e conforto, explore. – Sublime consente, beija meu punho e sorri ingenuamente. Envolvo seus cabelos e a abordo agressivamente. Beijo-lhe a boca, sugo sua língua devagar; seus lábios deliciam-me e sua febril saliva é a mais doce quietude. Ela vibra. Contemplo sua infantilidade e aproximo mais o seu corpo ao meu, envolvo meu braço em sua cintura e intimido seus movimentos. Ela arfa. Cesso o beijo e fito os olhos absortos de minha posse. 

— Exijo que cuide de si para servir-me ao anoitecer.

— Cabelos úmidos, cereja nos lábios, uísque de primavera... – ela profere. Sorrio... Uma lembrança emerge-nos em êxtase.

~

 
SublimeOanna SeltenComentário