Capítulo Quinque

Não imaginei, sequer por um instante, que Stephen seria o homem que traria cores à minha penumbra, aquele que me ajudaria a enxergar o que nunca vi; no entanto, minha intuição me guiava a ele. Foi por isso que, mais uma vez, eu planejei minhas ações. Decidi ir embora cerca de dez minutos depois de entrar na sala de aula. Inventei uma repentina dor de cabeça insuportável e saí. Era crucial encontrar aquele homem outra vez e eu, tão menina, tão nova, sequer pensava nas consequências. 

Assim que coloquei meus pés na calçada, olhei para os lados procurando Stephen. A rua estava movimentada, bem diferente do horário comum de saída dos alunos. Olhei para cima, a meia lua brilhava enevoada, quase impossível de fitar, tive de semicerrar os olhos para vê-la melhor. Quando tornei minhas retinas ao redor, vi Stephen sair da escola pelo mesmo portão que eu havia saído há cinco minutos. Escondi-me atrás de uma árvore e espreitei os movimentos dele.

Stephen respirou fundo, colocou a mão no bolso interno de seu casaco e, em seguida, exatamente como eu fiz, ele olhou para o céu. “Como irei abordá-lo? Devo abordá-lo? O que farei agora?” – pensei aflita. Ele olhou com seriedade, demoradamente, para a lua. “O que será que está ele pensando...” – indaguei-me em silêncio. Depois de um tempo, Stephen voltou seus olhos ao seu celular. “Preciso chocar-me com ele, como um acidente. Eu não posso simplesmente, depois de tudo o que ele viu, ir atrás dele. Não estou tão desesperada assim” – pensei. Em seguida me dei conta que, na verdade, eu estava desesperada.

Stephen começou a cursar o trajeto que o afastava de mim, ele andava lentamente. As pessoas passavam ao meu redor enquanto eu tentava não perdê-lo de vista. Então comecei a caminhar também. Veladamente eu o estava seguindo. Às vezes eu parava em algum canto, deixava-o se afastar e depois eu prosseguia. Ele andava sem pressa, olhava em seu relógio de pulso vez ou outra. 

“Até quando vais continuar?” – perguntei a mim mesma. Não adiantava muito segui-lo daquela forma se, no fim, ele pegaria um táxi ou algo do tipo e iria embora para sempre. Todavia, não surgiu em minha mente uma possibilidade de abordá-lo, era impensável, eu estava começando a desistir. Foi então que ele parou e me dei conta que não havia nenhum lugar para me esconder, ele certamente me veria ali. Virei de costas, era a única coisa a se fazer, e fingi estar telefonando para alguém. Esperei cerca de um minuto e, indiretamente, olhei para ele outra vez.

Seus olhos, sem desvios, perfeitamente retilíneos, devoravam os meus. Ele estava fixado em mim, como se soubesse a todo o tempo que eu o seguia. Não houve reação de minha parte, fiquei apavorada, meu coração era uma bomba-relógio. Pensei em inúmeras possibilidades, até mesmo a possibilidade de correr, porém, eu não queria fugir, eu desejava Stephen e agora por mais que eu tente traduzir o que senti por ele desde o início, é indizível, intraduzível e impensável. E se, por acaso, eu viesse algum dia a ser capaz de descrever com exatidão o meu sentimento por Stephen naquele momento, eu não o faria, pois, o mundo não entenderia o que pulsava em meu peito, o que gritava em meu espírito.

Os carros passavam, as pessoas passavam, e era como se houvesse apenas os olhos claros de Stephen, o seu corpo, a sua alma e eu. Frio... foi o que senti. A noite escureceu ainda mais com as nuvens que pousaram frente à lua. As luzes dos automóveis vinham em minha direção, eu apenas via Stephen. Tão invicto, tão terrífico, tão instigante. Foi então que ele olhou para os lados e atravessou a distância entre nós, aproximou-se de mim e cada passo seu era uma guerra nova em minha mente.

“O que faço, o que digo, o que... eu não sei o que fazer” – pensei ansiosa. Então, ele chegou. Olhou para os lados como se procurasse avaliar o que diria em seguida, olhou para mim. Tão sério e atraente. Acariciei meus braços, o frio me consumia.

— Vou até Lyanna, venha comigo – ele proferiu, a voz de trovão era baixa e quente. Lyanna era um café que ficava perto dali, eu apenas o frequentava quando Meredith implorava para ir tomar o famoso cappuccino com morangos. Era um local agradável e seguro, relativamente perto da escola, achei ser um convite sensato, então balancei a cabeça para dizer que o acompanharia. Começamos a caminhar, um ao lado do outro, em silêncio.

Pouco tempo depois, adentramos o local. Estava muito aconchegante, quente e com aroma de café com chocolate. Sentamo-nos a mesa mais afastada, no andar de cima. Havia apenas dois casais no mesmo andar. As luzes tenras possibilitavam uma ampla visão do ambiente, eu podia ver os detalhes de tudo, até mesmo e, principalmente, os detalhes de Stephen.

Ele não olhava para mim, estava fixo no cardápio e eu, completamente fixada nele. Seu rosto indicava que ele não tinha menos que trinta anos de idade e que talvez beirasse os quarenta anos. Cada pormenor em sua face e em suas mãos eu guardei em minha memória, o seu relógio de pulso e seus cabelos finos me agradavam. Stephen pediu para si um café sem açúcar e, para mim, sem questionar-me, pediu um suco de frutas vermelhas. Não me incomodei com isso, na verdade, frutas vermelhas me eram deliciáveis.

— Algo te fez seguir-me. – ele disse irredutível. Desviei meu olhar, não havia como não respondê-lo sinceramente. No entanto, qual resposta dar? Era tudo tão abstrato, meus sentimentos, minhas razões, minhas motivações.

— Eu segui... por... por uma sensação incomum – respondi em som quase inaudível.

— Uma sensação e uma expectativa – afirmou, eu fiquei em silêncio. — Não sou como teus amigos, tampouco como os homens que conheces. – Ele tomou mais um gole de sua bebida. — Não satisfarei teus desejos românticos. – Continuei em silêncio. — Mas, no que concerne a tua excitação sexual, algo pode ser feito – concluiu.

Eu não esperava por aquela frieza, era como se o vento da noite estivesse emanando dos poros da pele daquele homem. Uma sombria tristeza, bem devagar, se beirava a mim. Meu silêncio prosseguia e ele fez Stephen calar-se igualmente. Ficamos trocando olhares, buscando palavras na visão. A sensação de permanecer ali ainda ardia, a sensação de necessitar de Stephen ainda era viva, mesmo tendo a angústia envolvido meu coração, tudo continuava intacto. Eu o queria, eu precisava dele.

— O que isso significa? – indaguei.

— Uma troca. Satisfaço teu desejo, tu satisfazes o meu. 

— E qual é o teu? – questionei curiosa. Seu olhar me penetrava da mesma maneira que seu falo o faria em poucos dias depois.

— Sadismo. – Olhei-o com semblante alarmado, em minha fronte apenas medo, eu me senti mais triste que outrora. Ocultei a sensação que bradava por ser ouvida e olhei Stephen com claro furor.

— Isso é loucura... – eu disse, impaciente. — Não posso aceitar isso... – Eu deveria ter percebido, notado e contestado que Stephen era louco, talvez psicopata; no entanto, a maldita sensação ainda me atraía a ele. E ela vinha da cor que jurei ter enxergado assim que olhei nos olhos dele. Não era preto, não era cinza ou branco, era uma cor indizível, uma cor que só eu podia compreender. “Estou delirando” – pensei e levantei-me em seguida.

— Sinto muito... isso... isso é impossível... — Dei dois passos hesitantes em direção à saída do local, senti a mão fria de Stephen tocar meu braço. Parei. Era um toque suave que pedia para que eu ficasse. Ele se levantou e olhou nos meus olhos, bem perto de mim.

— Fique – ele disse. — Se te afastas pela minha honestidade, terei de ser ardil para que fiques? – ele proferiu e eu respirei profundamente.

— Não... – sussurrei. Apesar do susto pela revelação, Stephen havia sido desde sempre sincero, eu reconhecia e agradecia por isso, então eu fiquei. Sentamo-nos de novo. Queria ouvir mais sobre ele.

— Qual a tua idade?

— Dezessete, mas, dentro de uma semana eu faço dezoito. – Eu disse animada e repentinamente feliz. Stephen sorriu. Um sorriso de envolvimento, um sorriso de suavidade, um sorriso que me fez sorrir e em seguida me fez calma e a calma afastou a estranheza, o medo, o temor. Era o mais belo sorriso, o mais austero sorriso, o mais perverso sorriso. Senti justificada a minha permanência, porque aquele sorriso lívido era digno de ser a razão primeira. 

Ardil... isso Stephen não era, de fato. Sua sinceridade era transparente, límpida e confiante, louvável para um homem como ele que tendemos a esperar que profira apenas as mentiras mais chulas. Um preconceito infundado – com pleonasmo para enfatizar. Mesmo com essa sua sinceridade, não esvaía o mistério envolto de sua aura, tampouco o enigma de seu âmago. Cada detalhe que o compunha era uma descoberta e uma incógnita; ele falava pouco, ouvia muito, seu silêncio era a sua principal bruma.

Antes de deixá-lo e seguir para a república, fui instruída a pensar sobre a proposta e, se desejasse saber mais a respeito, ele estaria disposto a ensinar-me. Em Lyanna, falamos apenas de nossas vidas, família, passado, presente e possibilidades. E eu, ali, sentia-me viva; derretida pela luxúria mais acentuada existente, fazendo lubrificar minha cona de maneira irrefreável. E eu disse a Stephen que pensaria sim, em tudo o que falamos, e eu estava tão bem que a disposição para conhecê-lo mais profundamente tomava conta de meu organismo. O sadismo, a frieza, as verdades que ele me contava sobre seu espírito, nada disso me assombrava.

Infelizmente, assim que me afastei de Stephen, poucas horas sem a sua presença foram suficientes para um oceano de fantasmas se acomodarem em mim. “Tu podes ter esse problema, mas, pelo menos tu não és cega” – diziam-me. Espezinhavam minha dor comparando-a com a dor alheia, como se fosse preciso estar na condição mais miserável existente para ser permitido o sofrimento, caso contrário, deve-se “erguer a cabeça e dar graças a deus”.

Toda a dor é singular, o vazio me afundava sem permissão, a ausência de cores me deprimia, a solidão me comprimia e tudo isso era tão verossímil quanto qualquer outra coisa. Eu queria voltar à Lyanna, queria olhar Stephen sorrir, queria vê-lo estampar desejo em sua fronte, queria amá-lo e se fosse preciso me submeter ao seu sadismo, eu estava disposta. Porque, efetivamente, em sua presença a dor se esvaía de mim.