Capítulo Sedecim

Estávamos no verão mais tropical em dez anos. Tudo o que advinha da atmosfera era luz e, sob tal cintilar, eu observava a pele branca de Sublime em contraste com um vestido vermelho, exatamente vermelho, o mais vermelho dos vermelhos. Rarefeito, alando-se no frescor vernal ainda remanescente, tornava-me débil pelo enlevo erótico que tão logo me cingia. A areia estava tórrida e agradável, os óculos de sol cobriam as írises de Sublime e eu projetava meus olhos nos dela, tecendo uma realidade seorsum onde a cor predomina para ela e o semblante de triunfo toca cada curva de sua face. 

Abruptamente ela vira-se para mim, há suco de cereja em seus lábios; ela profere: “Cereja nos lábios” e com sua língua gostosa, aproveita do suco ao redor. A cena é tentadora. Seus cabelos estão úmidos, o mar a tocara há pouco, de modo simbólico apreendi a imensidão oceânica como o corpo qual Sublime buscava, dia após dia, todas as noites. Logrando minha presença eu preceituava sua reverência e, em seguida, deitava-me com ela em sua cama. Ela aconchegava-se em mim como um gato: “Posso chupá-lo, Mestre?” – pedia-me. Com a permissão concedida, Sublime apoiava sua cabeça em meu abdômen e sugava meu falo até ela adormecer; sem nenhuma pressa. Eu permanecia intumescido até o sono contorná-la. 

A felação infante aproximava-nos de modo ímpar, deixava evidente a sua dependência e tornava meu poder ainda maior. Se Sublime não sorvesse de meu membro todas as noites, não conseguiria dormir; era preciso tê-lo duro em sua boca, era preciso chupá-lo por sucções contínuas e pequenas, dessarte, e somente dessarte, a calma tocava seu imo e a sua consciência labiríntica se apaziguava suficientemente para o estado letárgico penetrar o seu organismo. Fora a partir da quinta semana de envolvimento sadomasoquista comigo, que minha posse passou a lograr por este ritual noturno. 

Com lábios de cereja e úmidos cabelos, ela então profere: “Qual é o sabor desta bebida?” – Há uísque n’uma garrafa pequena ao meu lado, está intocado; puro para a degustação caso a viagem à praia perdurasse. “Aproxime-se” – ordeno. Ela vem. Abro o frasco e disponho uma pequena quantidade n’um copo. “Experimente” – preceituo. Sublime obedece, expressa em seguida o que imaginei; o gosto amargo acionou o enjoo em sua língua. “O que é isso? É horrível...” – ela questiona e reclama entre sonidos de desagrado. “Uísque de primavera” – profiro enquanto sorrio para ela, seu rosto é de dúvida e graça. “Ora, as flores não exalam álcool” – ela diz com gracejo. 

Sublime sempre se escorou em lembranças para abater consternações. Naquele momento, portanto, buscava, na vivência a priori, a força para encarar o seu pesadelo. Deixei-a só e segui. Por longos minutos fiquei sob minha própria companhia no escritório de Istvan. “Já foste perdido e incerto? Já viveste o desequilíbrio e a desordem?” – ouço por reminiscência. Pondero. Desigual ao que instiga Sublime, o passado lembra-me apenas, e muito mais, da erronia. 

— Não te martirizes – escuto. É Istvan. Olho-o. — Conheço esta tua expressão, Stephen Knill. A culpa pode aniquilar a tua racionalidade – ele diz. — A arrogância e o orgulho também podem – completa. 

— Quanto saber deténs na tua ignorância acerca da culpa por permitir, latente ou não, que todas as pessoas cruciais de tua vida fossem afligidas pelo mesmo animal doentio. 

— Não te lembras de Soen? – Iro-me diante a indagação. 

 Tola pergunta, Istvan. 

— Tola? Falas como se Saphihr e Sublime tivessem sido as únicas em sua vida, falas como se tivesses errado com ambas, falas como se Soen nunca tivesse existido! – Aproximo-me dele, poderia sufocá-lo até a morte pela ousadia. 

— Respeite o existir pretérito de Soen e a memória do mesmo; não a mencione sem o profundo cuidado preciso. 

— Não é intenção minha desrespeitá-la, apenas fazer-te enxergar que salvaste a vida das três pessoas cruciais de tua vida. 

— Salvei? – Istvan encara-me. 

 Enquanto Soen viveu, esteve salva em tuas mãos. 

— Salvá-la requeria destruir o execrável câncer de suas vísceras e isso não foi feito. 

— Não és Deus, Steph... 

— Não – interrompo-o — Não sou, pois, se eu fosse, eu definharia pelo dolo de criar e aniquilar vidas enquanto existo no vazio solitário de meu poder. 

— Vives no vazio solitário do teu poder, Stephen, caso contrário não estarias definhando no silêncio pela culpa por teus limites humanos. – Silêncio. Longo e penoso silêncio. — Salvaste Soen, não negue. Salvaste Saphihr que agora vive feliz e radiante do outro lado do mundo. E Sublime, dia após dia, mais e mais salva. Há quantos dias ela voltou? Quão rápido se recuperou? Quantas vezes já sorriu após um trauma tão árduo? Contigo, eu sei, ela já sorriu. Por mais que tu negues, trata-se de amor e somente por isso é possível salvar alguém. 

 Tens razão – profiro, Istvan se surpreende. 

— Como é? – indaga. 

— Ouviste com perfeição as minhas palavras. 

— Sim... Eu... só não... não posso acreditar... 

— Pensas que sabe quem sou; falas da arrogância, ironizas minha erudição. – Silêncio. — A prova de que não sou Deus, mas que sou superior a ele, é, exatamente, por possuir o antônimo da prepotência. – Silêncio. — A equidade, Istvan – concluo. Vejo-o sorrir inconformado. — Fiz o que pude por Soen... Contornei as nefastas falhas egocêntricas de Deus e fiz dos dias de minha filha os mais esplêndidos. Ela sorriu na dor, e sorriu no medo, e sorriu, por fim, na morte. 

O sorriso de Soen... detrás da grade envolta do pátio da ESCE... segurando uma boneca de pano e acenando para mim. Em seus braços, curativos; em seu nariz, pequeno e rosado, uma sonda premente; em seu cabelo, cachos negros decorados com estrelas de plástico. A falta que ela faz abre o precipício da ira em meu cerne. “Papai... ops... posso te chamar assim, Senhor?” – ela indaga sutilmente enquanto contém a alegria em ser adotada. Abaixo-me para olhá-la em cada detalhe, sorrio. “Claro, Soen” – respondo calmamente, ela me abraça. “Eu sabia! Eu sabia! Eu te vi lá do pátio e eu sabia! Não poderia ser nenhuma outra pessoa!” – proferiu eufórica. O choro intenso veio a seguir, mesclado à felicidade, mesclado às dores e ao cansaço. 

Ela criou tanta expectativa ao ver-te, senhor, tememos muito pelo tamanho da frustração que ela teria, mas graças a Deus o senhor se comoveu...” – proferiu Lia, uma das professoras de Soen. Nunca se tratou de comoção, tampouco de caridade, Soen já dissera, não poderia ser outro além de mim. Havia algo intuitivo preestabelecido.

Fora um ano sem frustrações; um ano aprendendo a arrancar da dor perversa o mais sumo deleite; encontrando vida no sofrimento e esperança nos meus olhos. “Eu te amo tanto, papai” – ouço-a antes da segunda cirurgia iniciar, a segunda na mesma semana. Toco sua fronte. Meu sorriso se abre... “Eu te amo muito mais, Soen, olhe para meu tamanho, cabe muito mais amor em mim” – ela ri docemente, de modo evo. “É verdade... é mesmo... és grandão como a nuvem que cobre a gente, a nuvem cheia de água... vou sentir tanta falta de ti...” – vejo nascer lágrimas em seus olhos. “Chuva nos teus olhos para que, junto ao reluzir do sol em teu coração, nasça um arco-íris.” – digo para que mais risadas em seu rosto delicado possam emergir, e emergem. Soen toca meu rosto. “Espero teu retorno, filha, para acabarmos com a falta...” – profiro. 

Mas... não houve retorno... 
Já são oito anos... oito anos de falta ininterrupta.

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SublimeOanna SeltenComentário