Capítulo Septem

— Stephen! – eu gritei sutilmente ao ouvir um som vindo do andar de baixo da casa, um som que me fizera despertar de um sonho, um barulho que me levou a sair da escuridão. Abri a porta do guarda-roupa e corri em direção à sala, meu coração palpitava tão célere. As algemas balançavam ressonando minha submissão e, mais do que isso, o meu amor. Encontrá-lo seria um recomeço, eu contaria tudo o que sinto e imploraria para ouvi-lo dizer seus mais obscuros sentimentos.

Quando cheguei à sala, eu vi três homens. No segundo único entre captar a imagem de seus corpos e apreender o que ela significava, eu fitei cada um de seus olhos, dois pares escuros e um par claro. Nenhum deles tratava-se de Stephen. Desesperei-me e corri, entretanto, infelizmente, fui pega, antes do primeiro passo de fuga, por um dos homens que me impediu de gritar com sua mão em minha boca e nariz. Fui sufocada, ardilosamente sufocada até desmaiar.

Era setembro, percebi isso pelas flores coloridas nas copas fartas de inúmeras árvores distintas. Clarões sutis em minhas retinas e a pele bege de um homem alto alcança meu campo de visão, busco sua face para reconhecê-lo e o brilho de seus olhos azuis me faz compreender. Ele sorri. Era Stephen. Ofereceu-me uma rosa vermelha, suas pétalas afastadas corrobora que um toque medianamente feroz as dilaceraria. O verde ao redor é estonteante e o céu é tão claro e azul. Olho para minhas mãos e o amarelo sol toca-as, aquece-as. Sei que estou sorrindo, posso enxergar com perfeição cada tonalidade; sinto-me íntima às cores, então, ainda que com clarões enevoados em minha visão, corro sobre a grama esmeralda. 

O vento em minha face, a vida em seu ápice; e eu corro, eu apenas corro. Em um corredor de arbustos de rododendro, toco as flores em magenta e escarlate, rubro como gaultéria, tudo tão vivo quanto eu. Sou capaz de nomear cada cor, cada flor, cada planta, mas, ao parar a minha pressa, olho ao redor e então eu vejo um arbusto imenso, no centro do parque, cheio de heléboros. A escuridão plena de suas pétalas, galhos e folhas me atrai, me lembro da paene umbra. Por que justamente a planta menos colorida ocuparia a maior parte daquele pulcro paraíso?

Devagar, caminho. Em sua frente consigo perceber quão alta é, poderia compará-la a um arranha-céu. Não há tons violáceos em sua constituição, como de costume àquela espécie; suas pétalas são da cor preta, apenas preta. Seus galhos são cinza, nenhum tom acima ou abaixo de cinza e, seu pólen, meramente branco. Olho para trás, não vejo Stephen. Levanto minhas mãos, sinto precisar tocar tais heléboros obscuros. 

Toco-as e tudo rapidamente torna-se a paene umbra. Todas as cores desaparecem. Entro em lancinante desolação. O medo começa a me corroer e eu grito, e eu choro compulsivamente, e eu chamo por Stephen, e eu corro para encontrá-lo. Corro, corro e chego a lugar algum, então retorno ao arbusto quimérico, pois ele, estranhamente, está sempre perto de mim ainda que eu corra anos-luz. Entro no interior de sua folhagem e aqueço-me de sua escuridão enquanto morro em seu veneno.

Abro meus olhos, mas nada vejo além do etéreo breu. O sonho que se tornou pesadelo, não me fez assustar; acordei com uma calma agônica e angustiante que jamais saberia descrever. Estou nua, algemas ainda em meus pulsos, estou sobre uma cama desconfortável, sinto cheiro de madeira e ferrugem empoeirada. Grito por Stephen enquanto lágrimas se formam em minhas íris. Começo a me lembrar dos homens, de seus olhos, do desmaio. “Eu fui sequestrada” – penso no exato momento em que uma porta se abre e, em sua claridade, um homem surge.

Desta vez, sequer seus olhos podiam ser vistos, a máscara agora tinha outra constituição, impedia qualquer tipo de reconhecimento de minha parte. A voz, que não tardou a sair, estava eletronicamente modificada. As mãos com luvas, as roupas com metais ao redor. Senti um medo que nunca senti em todos os meus vinte e um anos de idade.

— Quem és? – indaguei, eu tremia.

— Me chame de Forsihar. – Arrepio-me pelo temor que se alastra como o veneno de heléboros que, em sonhos, senti.

— O... que... t-tu q-queres? – balbuciei.

— Destruir os teus sonhos tornando-os pesadelos reais – ele profere. A esta altura, eu já soluçava.

— Por quê? – sussurro mais para eu mesma do que para aquele homem apavorante. Ele se aproxima; um passo para suscitar meu grito. Chamo por Stephen. Forsihar cala-me com força descomunal, batendo em meu rosto com sua mão direita.

— Calada! – Tento levar minhas mãos ao meu rosto, protegendo a pele do impacto do golpe, mas, uma corrente presa às algemas impede o movimento. — Cada traço de ira que ele me fez suster será retribuído na mesma intensidade. – Olho para o homem tentando entender tudo aquilo — E tu serás meu instrumento, embora eu saiba que Stephen pouco se importa com o teu sumiço, afinal, é fácil encontrar jovens garotas inocentes para foder e usar como escrava sexual.

— Tu não o conheces! – digo sem pensar nas consequências. Aquelas palavras me feriram. O homem gargalha, e afasta-se de mim sem deixar de me encarar.

— Tua raiva diante o que digo só prova a verdade que te negas a ver – ele profere enquanto caminha em direção à porta — És uma menina tola, das mais tolas. Preferes a idealização de amor recíproco à verdade amarga de nunca ter sido verdadeiramente amada – o homem para antes de se retirar, toca a maçaneta da porta de ferro — Vou fazer-te desistir da ilusão, por bem ou, assim espero, por mal.

Ele a abre, dois outros homens entram. Forsihar sai dando-me adeus com um movimento provocativo e eu só consigo chorar. Os homens em minha frente são altos e vestem apenas uma máscara comum, posso ver os olhos asquerosos deles, posso ver a pele repugnante que os compõem. Encolho-me no canto da cama, seguro as algemas de meu Mestre e rogo a qualquer divindade para me ajudar a suportar o que viria.

— Acho que essa vadia precisa de algo especial – disse um dos homens — A começar por extreme spanking – concluiu dando, em seguida, uma gargalhada diabólica. O outro homem riu na mesma intensidade e se aproximou de mim segurando um pedaço de madeira com farpas. 

— Por favor... não... por favor... – implorei em vão. O homem acertou-me as nádegas com a madeira e continuou batendo diante meus gritos ensurdecedores. Olhavam-me terrificada e riam constantemente, cada lágrima era um novo golpe e quando minha pele já não suportava, senti forçarem a entrada seca de minha cona com algum objeto rijo e gelado, talvez um metal ou algo pior. Raspou em minha cútis e ardeu, machucou profundamente, a dor insuportável saiu em gritos horríveis que logravam piedade. Eu morreria, certamente, da pior forma possível. 

Stephen me batia, é verdade, mas não daquela maneira; ele olhava nos meus olhos e descobria meus limites mesmo quando, ébrio, ultrapassava-os. Nunca fui deserto sob a presença de meu Mestre, sempre fui oceano, um oceano de desejos; com ele minha cona era um rio aprazível pronto para recebê-lo. Ali, com aqueles dois animais, eu era areia fina sob o sol mais escaldante existente. E se por um tempo vi-me indagando se de fato apreciava a personalidade de Stephen, é, pois, pela intensa precisão de imergir-me sentimentalmente, sem medo, em nossa relação, isso estava além de um contrato. Não, o amor de Stephen não era uma ilusão, não podia ser.

Para fugir da dor, do estupro, da violação, pensei em meu Mestre e busquei na mente momentos que comprovassem seu amor para, assim, poder aliviar a dor ininterrupta da carne e da alma. “Stephen me ama” – pensei. “Stephen me ama” – sussurrei. “Stephen... Stephen... Stephen.” – proferi. Se morrer era fatídico, então, seria com o nome do homem que amo em minha boca e sua existência em minha memória.