Capítulo Septendecim

Havia algo naquele pequeno ser, algo que relumbrava tênue e que me cativou no instante único em que o vi. Na quietação da distância, tornou-se, subitamente, inescusável ir até lá para ouvi-la falar, para conhecê-la e compreendê-la. Não houve nenhum tipo de condolência, este sentir jamais vestiu minha personalidade; pouco me afeto pela angústia d’outrem, no entanto, quando me vinculo de algum modo transcendente, me diligencio a zelar pela permanência, forte e estável, de tal elo.

Soen foi doada a mim com uma facilidade desconfiável, nada além de uma assinatura em um termo de responsabilidade foi preciso para efetivar o ato; a resposta a esta perigosa ação da Escola de Cuidados Elementares – ESCE era evidente em preconceito: “Senhor Knill, Soen está há muito tempo doente e seu quadro vem piorando. Ela já não possui beleza, compreende? Dá mais trabalho do que qualquer outra criança e é completamente... inservível. Ninguém pegaria uma criança dessa para fazer algo de ruim, pois, ela morreria assim que saísse daqui. É preciso uma enfermeira diariamente com ela para que ela continue lutando, em vão, sabemos, pela própria vida” – disse Elihot Azsevem, diretor da ESCE.

Amplos olhos negros, pele de tom rútilo e cabelos de cor quantum. Era o Outono renascido em forma humana. Se não havia beleza nisso, então, não havia beleza em nada mais. Este Outono tornou-se um retrato na parede do inverno que me compõe; a neve em preto absoluto tomando-me enquanto mantenho o quadro aquecido em meu peito; não apenas este que representa Soen, mas também o de Saphihr, composto pelo Verão. Saphihr nunca pôde ser minha, precisava, antes, ser de si mesma; ela sempre desejou morar na Nova Suécia, sempre desejou especializar-se em História, ansiava em aprender alguma arte oriental e, também, ter um animal exótico de estimação. Tudo isso demonstrava sua necessidade de solidão, por isso, dei a ela tudo o que precisava para realizar-se.

— Ettore prossegue como membro de Insrher? – indago Istvan.

— Oh! Claro! – ele levanta-se e caminha em direção à porta — Levar-te-ei ao aposento de Ettore, aliás, eis aí outro que foi salvo por ti – exclamou enquanto caminhávamos — Sei que pareço estar incensando demasiado tua ilustre magnitude... – Rio diante seu disparate e vejo tomar forma a sua ironia de autodefesa. — Mas, considero-te de fato, embora repugne teu niilismo antissocial.

— Bom, Istvan, considero-te igualmente, embora repugne a tua ignorância. – Sinto-o direcionar ódio a mim.

 Insuportável permanecer mais de meia hora sob a tua presença – ele profere, no entanto, sorri, então apreendo não haver ferido seus sentimentos. Istvan bate à porta e logo se retira para uma reunião, deste modo, quando Ettore surge, somente eu estou à sua espera.

— Mentor Stephen! – Sobressalta, em sua fronte a admiração. — Que prazer ver-te depois de tanto tempo, por favor, entre! – Cumprimento-o formalmente, adentro seu aposento e vejo duas mulheres e um rapaz sentados, um ao lado do outro. — Deixe-me apresentar-te às minhas posses. Esta é Júlia, a primeira que encoleirei. Júlia, este é meu Mentor Stephen.

— Senhor Stephen, prazer conhecê-lo. – Cumprimento-a sem tocá-la e em silêncio.

— Esta é Mahrys, a mais nova, segunda encoleirada. Mahrys, cumprimente Stephen, meu Mentor.

— Senhor Stephen – vejo-a reverenciar-me, agradeço ainda em silêncio.

— E este é Nero, meu primeiro submisso, terceiro a ser encoleirado.

— Saudações servis, Senhor Stephen – profere, minha reação se iguala às demais.

— Vejo que encontraste o teu lugar neste universo, Ettore.

 Sim, Mentor, graças a ti – ele sorri. — Servos, estão dispensados, sigam ao jardim. Agora iniciarei uma reunião com Mentor Stephen e assim que terminar, chamar-vos-ei. Não vos afastem em demasia, manterei meus olhos sobre vossos corpos.

— Sim, Mestre! – exclamaram em uníssono e deixaram o cômodo.

 Sente-se Mentor. Sequer posso acreditar que estás aqui – vejo-o servir-me de uísque em um cristal idêntico aos meus, recordo-me. — Este cristal não foi utilizado desde que me presenteaste, acredito que seria desatino de minha parte ver-me digno de usá-lo, por isso, guardei para o teu retorno.

Ettore era um homem jovem, estava com vinte e cinco anos e esteve sob minha mentoria dos dezenove aos vinte e dois anos. Nestes idos pude ensiná-lo mais do que BDSM, orientei-o a nutrir uma conduta de vida específica para que ele fosse digno de ser chamado de Mestre. Quando desconfiei de sua paixão por mim, tive de cessar o contrato de mentoria, contudo, antes disso, tratei de instruí-lo quanto à dúvida caótica sobre ser um dominador e amar outro dominador. Ettore sentia que não tinha nenhuma inclinação para a submissão e, ao ser posto frente à sua paixão por mim, adentrou a um conflito tamanho que o levaria à decadência mental e sentimental, caso não fosse alumiado.

Quaisquer sentimentos cuja estima inclina-se à fascinação, de modo a trazer aos olhos um reluzir de adoração, sustêm um indelével amor. Ainda que soubesse de minha não reciprocidade à relacionamentos homoafetivos, dia após dia, via-se cada vez mais envolvido a mim na fantasia de um elo sexual e romântico.

— Só poderás ser digno de usá-lo quando reconheceres que és digno – digo e tomo o primeiro gole.

 Sim, estás absolutamente correto... – Silêncio — Retornaste à Insrher por alguma razão, Mentor?

— Sim. Instruir minha posse sobre BDSM e sua liturgia.

— Sua posse? – Olho em sua direção, busco traduzir suas expressões. — Poderei conhecê-la? Será uma honra para mim. — Temo que Ettore esteja fomentando a fantasia d’outrora.

— Ettore...

— Mentor – ele me interrompe — Perdoe-me interrompê-lo, sei que notaste algo em meu semblante... – Seu nervosismo se expande. — Não pude deixar de desejar-te desde o ocorrido. Eis o motivo de minha inquietação. Lembro-me que tu me disseste: “Podes não possuir inclinação à submissão, mas, amar também leva à submissão, a menos que tenha controle sobre o amor”. Pois, Mentor Stephen, não consigo controlar este sentir que me assoberba...

— A priori deves desejar que este sentimento seja controlado, pelo que observo, não é esta a tua ambição. – O suor escorre em seu pescoço, aflito e exasperado suor.

— Talvez... – confessa. — Ser teu submisso... já aceitei o fato de almejar ser teu submisso.

— E tu...

— Mentor, compreendo plenamente que não és nenhum pouco homoafetivo, não precisas utilizar-me sexualmente, embora minha fantasia inclua isso, eu apenas preciso ser teu – interrompe-me novamente.

— Controle-se, Ettore. Nenhum contrato se define através do impulso ou da piedade. Já falaste com tuas posses sobre a tua possível posição Switcher? – ele inclina-se como quem nota o próprio erro.

— Não... Mentor, eu não imaginei que voltarias a frequentar Insrher e, portanto...

— Ainda que eu não mais frequentasse esta confraria, Ettore, é dever teu enquanto Mestre dizer aos teus escravos quem tu verdadeiramente és no exato instante em que apreendes a tua essência. Eu ensinei deste modo, eu ensinei a sinceridade. Ser Switcher não é um problema, mas ser dissimulado sim. – Vejo-o lacrimejar. A minha presença o afeta.

— Eu sinto muito...

— Desculpe-se com teus escravos, não comigo. – Levanto-me. — Ordenarei para Istvan direcionar uma de suas submissas para iniciar-te a uma mentoria sobre a vivência da submissão. Somente após isso, voltaremos a conversar sobre o teu desejo, estamos entendidos?

— Sim, Mentor. Obrigado.

Procurei Ettore por confiar nele, proporia a realização de cenas dele com suas posses, para que Sublime e eu fossemos espectadores, deste modo eu a orientaria mais adequadamente. No entanto, diante o que ele revelou, já não seria possível.

Deixo o aposento de Ettore com a mente sobrecarregada, Ettore sempre me preocupou deveras pelo masoquismo sentimental que cultivava, pude perceber o alto nível disso ao reencontrá-lo. Tive de me resguardar na biblioteca de Istvan para que, ao anoitecer, pudesse encontrar Sublime sem densas cargas mentais.

Sublime está nua, vislumbro seu corpo ao adentrar o quarto. Ela está sentada na cama com alguns papéis em suas mãos. Instantaneamente perfura-me com seu olhar subserviente, tão logo ergue seus braços e abaixa sua cabeça, estende os papéis em minha direção. Aproximo-me, tomo-os para mim.

— “Ūnus” – leio a primeira palavra, fito minha posse. Levanto seu rosto. — O que é isto? – indago. Sua respiração aquecida alcança minhas mãos.

 Escrevi-me para revelar-me em absoluto ao meu Mestre – explica.

— “Dedos cumpridos, ossos rijos. Essas eram as mãos dele, e elas me batiam porque Stephen era sádico.” – leio o início do terceiro parágrafo. Olho para ela, seu rosto está corado, a timidez a toma e o temor a preenche. Sento-me na cama, coloco-a em meus braços, inicio a leitura, lenta e em voz alta, até sorver, completamente, as suas significações.

~

 
SublimeOanna SeltenComentário