Capítulo Sex

Olhei para a porta de casa e suspirei. As lembranças me faziam ainda mais confusa, ora eu queria correr para os braços de Stephen, ora eu queria sumir da existência. Ora eu odiava sua personalidade, ora eu a amava mais do que a mim mesma. Abri a porta de casa e o vi encostado ao lado direito da escada. Estava com o nó de sua gravata desfeito e olhava-me atentamente, seus braços estavam cruzados. Stephen fez um gesto com a sua mão esquerda para que eu me aproximasse e eu fui, vagarosamente. Ele me acariciou o rosto como quem sente saudades. Senti seu carinho entorpecente, fechei meus olhos e curvei levemente minha cabeça em sua mão fria. Quando levantei minhas pálpebras, revelei as lágrimas que já nasciam sem permissão.

— Não consegui – revelei a ele. Um silêncio se espargiu de ambas as partes.

— Não irei puni-la, Sublime – disse Stephen — Há mais alguma coisa que queira me contar? — Essa era a oportunidade perfeita para revelar tudo e essa oportunidade me assustou, comecei a suar frio, freei minhas palavras e Stephen apenas me olhava, ele percebia os pormenores. Contar tudo parecia uma má ideia, eu o magoaria, nós brigaríamos, porém, omitir tudo parecia tão má ideia quanto; por isso me exasperei.

— Não, senhor – eu disse com rapidez, tentando me afastar dos sentimentos, tentando afastar o medo. 

— Senhor? – ele disse. A voz dele mudou e isso foi o bastante para eu perceber o meu erro. Não consegui proferir uma sílaba diante àquele olhar furioso que Stephen imediatamente me destinou. Ele se afastou de mim e eu tremi. — Um homem te entrevistou? – Engoli minhas mentiras.

— Sim... – Stephen estava furioso.

— Sim o quê? – ele gritou.

— Sim, Mestre. – corrigi-me. Pisquei várias vezes e encolhi meu corpo. Eu estava submergindo cada vez mais em minhas falhas.

— Tu não irias me contar... 

— Eu iria, eu jur... 

— Estás mentindo. – ele afirmou em pausas. A voz dele atingiu um tom ainda mais duro, era o tom de decepção.

— Não, Mestre, eu... não... – Demonstrei desespero. Ele respirou fundo, tão fundo que me agoniou. Ele poderia ordenar-me qualquer coisa, ele poderia bater em meu rosto, ferir meu corpo, no entanto, ele silenciou e seu silêncio me asfixiou.

Um desânimo rijo, estável e perverso foi se apoderando do meu corpo, antes de presenciar a sua invasão hostil, caminhei apressada para o andar de cima, mesmo sem a permissão de Stephen. Corri para meu quarto. Eu tinha compreensão dos meus graves erros, o fato é que eu havia, não apenas conversado com Enzo, mas havia omitido de Stephen as minhas sensações diante a presença de outro homem. Meu Mestre tinha total consciência, ou melhor, ele tinha intuição acerca daquilo que eu pensava, ainda que eu não o contasse. Ele era capaz de fisgar os detalhes mais infinitesimais. 

Eu não devia ter desejado outro homem, nem por um milésimo de segundo. Agora eu estava certa do que eu deveria fazer para me redimir, comecei despindo-me e coloquei minhas roupas sobre a cama, caminhei descalça até o banheiro, fiz com que a água morna iniciasse sua queda e ela caía enquanto eu aguardava sentada ao lado da banheira, o piso aquecia devagar. Ouvi passos na escada e logo a imagem de Stephen fez-me presente. Levantei-me com pressa e coloquei minhas mãos para trás. Entrelacei-as, abaixei a cabeça.

— Devo ser punida, Mestre – eu disse suavemente, fiz o possível para escorrer dos poros de minha pele toda a servidão de minha alma. Demonstrar a Stephen a minha paixão, devoção e dedicação, era essencial.

— Por quê? – ele indagou irredutível e seco.

— Porque errei. Desrespeitei a regra de número treze.

— Profira a regra, Sublime. – Estremeci ao ouvi-lo ordenar. Sua voz ainda inalterável.

— Devo sempre contar-te meus pensamentos, ainda que estes te façam infeliz.

— Exato – ele disse, em pausas. E então avançou assaz sobre mim, subitâneo segurou com força meus cabelos e me olhou furioso. Teus olhos eram negros, eu jurei tê-los visto escurecer enquanto os meus, certamente, eclipsados pela ira de Stephen, desfaziam-se por intermédio da semissíncope que se alastrava em lentidão no meu cerne. Depois do encontro de retinas entre dono e propriedade, Stephen me levou até a beirada da banheira, prendeu minhas mãos com as algemas que trouxera em seu bolso – ele me afogaria, e era para isso que eu estava ali.

Com rapidez, Stephen imergiu minha cabeça na banheira completa de água morna e fez com que eu ficasse ali dentro por segundos difusos. A opressão dos pulmões se fazia; a busca desenfreada por oxigênio era absoluta. Eu me movimentava constantemente, meu cérebro indicava o fim que me seria dado, uma sensação de morte que só eu sei. Era aquela a pior das punições, e eu a merecia. Então Stephen me tirou da água e eu respirei, olhei-o com dificuldade, seu ódio era palpável.

Sem uma palavra, me imergiu n’água outra vez, o desespero foi igual; a sombra de seu corpo nas claras e límpidas águas, meu caos em suas mãos varonis. Ele me levanta, eu respiro, e sua face agora assumia contornos ainda mais manifestos acerca de sua gana. Eu merecia, eu merecia punição, contudo, o ódio de Stephen me assustava e ele se afastava de mim quando apoderado por tamanha cólera. 

Sei que não haveria como distinguir, naquele instante, as lágrimas de minha penumbra da água doce da banheira de porcelana, por isso permiti-me chorar, um choro que nasceu no centro cardiovascular. Fui novamente afogada e, desta vez, não prensei as pálpebras, eu vi a imensidão, era como um oceano fulgente. E Stephen demorou mais para que eu retornasse, ele queria que eu abeirasse a mortalidade em sua certeza incontestável. Foi neste ponto que engoli água e lágrimas e me debati estando ciente de que nada poderia ser pior do que o ódio de Stephen, nem mesmo a morte.

— Teu desejo por outro... tão evidente... – Com timbre de descaso e reprovação, ele profere ao levantar-me outra vez. Enquanto eu respirava e sentia sua mão em meu pescoço, ouvia suas palavras com angústia – eu apenas ansiava em implorar pelo seu perdão. 

— Queres tua carne em outras mãos? – pergunta.

— Me perdoe... – eu digo, chorosa. 

— Queres tua carne em outras mãos? – ele grita, grave, com ódio.

— Não... – respondo em sussurro. Stephen retira meus cabelos ensopados do rosto e visualiza minha face, sinto-o apertar meu pescoço mais intensamente.

— Cansaste de mim? – indagou. O som de sua voz mudara, o ódio deu lugar a algo que não entendi de imediato.

— Não, Mestre... – Eu chorava.

— Cansaste de mim? – ele gritou como quem busca o retorno do ódio, mas em vão.

— Não, Mestre, eu te amo. – Ele me imergiu novamente. Soltou-me na banheira e todo meu corpo caiu no pélago mar. Eu não conseguia me levantar, sentar na banheira ou alcançar sua superfície, eu estava presa, minhas mãos entrelaçadas impediam apoio. Senti-me em desalento, uma agonia ainda mais letífera me tomou. Foi então que vi a silhueta de meu dono, ele me salvou, levantando-me. Sentei e senti-o segurar outra vez meu pescoço.

— Quão verídica são tuas palavras? – ele pergunta; triste.

— São... completamente... verdadeiras – eu digo com dificuldade.

— Faça-me sentir mais – ele profere e eu me indago sobre que tipo de ordem era aquela e o porquê de sua tão profunda tristeza ter tomado o lugar de um ódio até então infindável. — Tua liberdade é absoluta e tua escolha fora manifesta – ele fala antes da minha voz ousar advir — Se houver retrocesso, tenha ciência que não tolero traição – ele aperta-me com mais veemência — Antes teu adeus – ele pausou a fala, soltou-me e sentou-se a beirada da banheira. Suas mãos em seu rosto, sua respiração quente, uma aflição recíproca.

Antes o meu adeus do que uma traição, essas foram as palavras de Stephen, porém, estavam carregadas de amargura, a fraqueza de sua voz indicava um pedido, uma lástima. Eu quis amá-lo ali, mas, havia um nó entre nós e isso me impediu. Talvez eu esperasse algo da parte de Stephen, e certamente eu esperava; queria vê-lo declarar seu amor e será que me amava? Será que seu ódio era medo de me perder? Será que um homem como Stephen tinha algum medo?

Lembro-me que suas palavras foram claras no início de nossa relação “Trata-se de uma negociação, um contrato que imporá comportamentos, restrições, deveres e direitos teus e meus. Nada além disso”. Ainda que naquele dia seu olhar taciturno tivesse me feito perceber algo além de um contrato, eu sei que poderia ter sido ilusão. Ele preceituava minha rendição incondicional e uma sensação de abandono me injuriava, eu carecia do amor de Stephen Knill. 

Vi-o levantar-se sem proferir uma única sílaba e sair do cômodo anuviado com idêntica quietação. Eu não consegui falar, eu precisava ouvi-lo, mas eu pude apenas ouvir seus passos descendo as escadas. Ao ouvir o som de seu carro partir, eu senti o revés de sua ausência. Quando Stephen afastava-se de mim, sua presença permanecia, uma densa percepção dela conservava-se e só me abandonava após longos minutos. Com o ruído de seu carro, todavia, partiu-se também sua presença, durou tão pouco e, quando me dei conta disso, contristei-me.

“Stephen...” – sussurrei ao vazio. Com dificuldade, passei minhas mãos, ainda presas, para frente de meu corpo e depois me envolvi em uma toalha lívida como eu. Andei até o quarto de meu Mestre em busca de seu ser, mesmo sabendo que ele não estava e mesmo me sentindo ambígua. Não havia possibilidade de indeferimento, eu sempre buscava por Stephen. Confusa, estranha, com medo, assustada, em todas as circunstâncias eu buscava por Stephen. Fui até seu armário, envolvi-me em suas roupas, o perfume natural de sua doce tempestade soturna se apoderou de minhas narinas. 

— Queria que tivesses ficado... Eu prefiro que fiques aqui ainda que em silêncio, ainda que frio – proferi às roupas dele. Infelizmente ele havia saído e havia me deixado em solidão sombria, talvez precisasse pensar; e se precisava, o que pensaria? Assim como ele almejava minha mente, vi-me almejando a dele; quis conhecê-la por completo ainda que isso me assustasse. 

Acomodei-me dentro daquele guarda-roupa, era o lugar que me aqueceria e me aproximaria do meu Dono. Lá fora a chuva começava a cair e eu lentamente adormecia enquanto pensava em Stephen e buscava, em suas camisas, um superficial conforto que me fizesse lembrar o prazer de estar envolvida em seus braços.