Capítulo Tres

— Sublime! – grita Stephen. E eu acordo de meus pensamentos tétricos imersos em lembranças e questões conturbadas. De repente sinto uma ardência desmedida e Stephen me olhava atentamente. Havia acontecido de novo, eu havia me perdido enquanto Stephen usava de seu sadismo. Ele segura meu rosto com força intensa. — Eu já ordenei para não se perder em pensamentos enquanto me serve! – grita ainda mais alto. Meu coração aperta. Foi algo não intencional. — Não te recordas?! – ele indaga e eu estremeço. Meus olhos enchem-se d’água. Ele estava gritando comigo, eu estava ardendo como nunca ardi e, junto a tudo isso, eu me sentia confusa e sozinha. Stephen solta-me e empurra-me para o chão novamente. — Vá para teu quarto. – Levanto-me com dificuldades, eu estava tão triste e tão ferida. Minha pele conflagrava como se estivesse coberta de queimaduras perigosas.

Meus passos eram regados por lágrimas cuja fonte era a dor física e a absurda dor emocional pela sensação de não ser amada. Soluços e desesperos interlaçados à angústia, eu não desejei aquilo para mim, no entanto, era preciso suportar, não porque eu era obrigada a, pois, na verdade, eu poderia ir embora a qualquer momento. Mas eu amava Stephen, eu o amava demais. Queria poder salvá-lo do seu próprio frio, sem que isso afetasse sua essência. Sua cruel essência. Porque desde o início eu quis, desde o início eu me apaixonei por essa crueldade. Sim, eu apreciava o seu sadismo, e era contraditório e confuso, pois, eu o queria menos frio e constantemente sádico. É possível um sádico amar?

Adormeci fugaz, porque meu corpo clamava por descanso. O sono pesado me tomou em seus braços e as lágrimas secaram sobre a pele facial. Só abri os olhos quando o despertador indicou-me o horário. Meus pensamentos estavam anestesiados e meu corpo quase restaurado. Toquei-me e senti-me macia, a pele escorregava como se estivesse oleosa, cuidada, protegida. A escuridão se esvaiu da minha palidez, apenas algumas marcas mais atrozes restaram. 

— “Era noite, e a chuva caiu; e, caindo, era chuva, mas, tendo caído, era sangue...” – proferiu Stephen. Ele estava em seu escritório, sentado, lendo Edgar Allan Poe. A luz matinal entrava com brandura através da janela de vidro, eu estava nua e eu havia buscado pela presença de Stephen assim que me levantei de minha cama. Eu precisava vê-lo. Lá ele estava, lendo, tranquilamente, ainda que sempre cultivasse o clima tempestuoso. Era a sua aura colérica contra a paz excruciante de sua leitura. Sorri assim que o vi.

— “...E, de repente, a lua surgiu por entre a tênue névoa espectral, e sua cor era escarlate...” – Stephen lia em grave tom, palavra por palavra, bem devagar, como se precisasse sugar das sílabas toda a energia ali conservada. Ele inseria-se na realidade proferida, seu interior se dilacerava. E ele nunca parava até o último ponto final. Então, vi-me ajoelhada, engatinhando até as pernas de Stephen e subindo em seu corpo, aninhando-me a ele enquanto a narração prosseguia como de costume. E me era um deleite ouvi-lo enquanto o preenchia com meu calor exorbitante.

— “E sua fronte era elevada e pensativa, e seu olhar, perturbado de preocupação; e nos poucos vincos de suas faces li as fábulas da tristeza, fadiga, repúdio à humanidade e anseio pela solidão”. – Eu via as palavras em seu livro, seguia-as com as retinas, uma tinta metálica sobre o papel. Aguardava ansiosamente a continuidade do conto, mas Stephen parou antes do último ponto final. Seu livro ocultou-se sobre a mesa de imbuia e os olhos dele se direcionaram a mim.

— Como estás? – indagou-me. Eu não consegui responder. Ficamos em silêncio, seu rosto perto do meu, seus braços ao meu redor. Não pelo último ponto de sua leitura, não pelo desprezo comumente doado por sua fronte, mas pelo amável cuidado brotado sem porquês, por isso ele parou de ler e por isso me questionou. E eu não soube como reagir de imediato àquilo. Quis dizê-lo que eu estava deprimida e dúbia, porém, eu não sabia como fazer isso. 

Peguei o livro sobre a mesa, três minutos depois, abri-o na página que meu Mestre lia. Talvez Poe me ajudasse, em algumas daquelas palavras, fazer nascer o significado dos sentimentos do meu coração. Fitei as letras e apontei à frase final da segunda estrofe: “...com um vermelho mais vivo, e me virei e olhei a rocha outra vez, e olhei os sinais; — e os sinais diziam DESOLAÇÃO”. Fechei-o, guardei-o e abaixei minha cabeça. Essa era a minha resposta à questão de Stephen, eu estava completamente desolada pela sua frieza, seu constante sadismo vermelho-vivo e pela colisão feroz entre essa sua personalidade e o meu amor por ele. Sim, havia algo a mais, algo entre esses dois opostos; havia meu ser submisso que, até aquele ponto, eu nunca havia enfrentado conscientemente, nunca havia compreendido ao todo.

A mistura disso tudo, me desolava. Stephen respirou profundamente algumas vezes, como se pensasse na revelação que eu fizera. Ele entendeu tudo e sei que, a partir daquele ponto, nossa relação mudaria. Eu tinha medo, eu o havia afetado, de alguma forma viva, seu silêncio revelava e eu esperei que ele falasse o que sentia. Depois de um tempo, porém, ele apenas permitiu-me sair para o meu compromisso daquela manhã. Eu o deixei com o coração apertado. 

— Senhorita Le Blanc? – A voz era suave e complacente, vinha de uma mulher robusta e torneada, uma bela mulher cuja pele era de um escuro mais ameno assim como suas roupas. Sorri e o sorriso foi recíproco, — O Senhor Enzo a receberá agora. – Ela disse. Agradeci-lhe e caminhei pelo corredor qual ela me dirigiu. Até a última porta. Era de vidro, em uma tonalidade escura, um vidro esfumaçado com ornamentos em contorno, incrivelmente gracioso. Hesitei ao entrar, eu estava nervosa e ansiosa. 

Bati duas vezes suaves no vidro adornado, uma voz ordenou a entrada. Abri, olhei, vi um homem sentado em uma cadeira acolchoada atrás de uma grande escrivaninha com papeis, pastas e documentos. Sobre ela, além disso, pousava uma delicada rosa de vidro negro em um vaso de cristal albino. Minhas retinas captaram a luz, ela era suave. Respirei aliviada.

— Senhorita Le Blanc, é um prazer conhecê-la. – O homem se levantou e eu caminhei em sua direção. Aquelas mãos… Eu podia ver as veias por baixo daquela pele, um anel envolto a um de seus dedos permitia que um enigma pairasse pelo toque. Um anel com um símbolo. Fixei de forma tão abrupta aquelas mãos que me esqueci de cumprimentá-lo. Há tempos não via ou tocava outra mão viril além das de Stephen. Quando notei estar em arrebatamento, imediatamente me recompus, toquei-lhe num cumprimento formal. Era tão quente a sua pele.

— Perdoe-me, é um prazer conhecê-lo, Senhor Enzo. – Ele sorriu e pediu para que eu me sentasse. Era um sorriso calmo, como a primavera no lusco-fusco de sua passagem. O achei tão encantador que sorri amenamente, mesmo sabendo que ele olhava para meu currículo naquele instante, e não para mim.

— Tens apenas vinte e um anos. – ele profere.

— Sim, senhor. – digo enquanto entrelaço os dedos de minhas mãos. E lembro-me de Stephen, pois, ele, há três anos, indagava sobre minha idade e eu lhe dizia, tão feliz, que tinha dezessete, mas faria dezoito na semana seguinte. Como se fazer dezoito anos fosse a glória da minha juventude; como se, ser finalmente responsável por mim mesma, fosse a maior das conquistas. Naquele momento, suspirei ao lembrar, eu estava cada vez mais nostálgica.

— Nenhuma experiência de trabalho... – Enzo me olhou e silenciou por um tempo. Ele tinha uma expressão elegante, e havia alguma coisa em seus lábios que me atraíam, embora não tanto quanto suas mãos. — Por que achas que devo contratar-te? – indaga. Agora ele havia colocado meu currículo na mesa, como se precisasse dedicar uma maior atenção às minhas respostas. Certamente porque não havia nada de interessante naquele papel.

— Acredito que posso fazer um bom trabalho, pois me dedico muito a tudo o que faço. Sou organizada, então saberei perfeitamente como manusear agenda de compromissos. – ele fitou meus seios. A excitação que me possuiu fora tão repentina e involuntária que estremeci. E os olhos escuros de Enzo pareciam confessar uma reciprocidade velada.

— Hum… – Ele dá um longo gemido, e eu mordo meu lábio inferior. Começo a ficar desconfortável. Havia algo naquele homem, tão particularmente atraente. Mas eu sabia que eu estava sentindo aquilo apenas porque vivi tão enclausurada nos últimos tempos e, agora, tudo parecia incrível e excitante. — O que gostas de fazer nas horas de lazer? – questiona-me.

— Gosto de ler, senhor – respondo pensativa.

— E qual fora tua última leitura? – ele indaga e eu lembro-me do colo confortável de Stephen; lembro-me de suas palavras narrando o conto de Poe. Há tempos eu não lia um livro completo, preferia ouvir Stephen. Ele lia todos os dias e, às vezes, eram leituras exageradamente difíceis. Ainda assim, eu gostava de ouvi-lo. 

— Pride and Prejudice, Jane Austen – proferi. Eu tentei pensar em algum livro mais intelectual, filosófico ou científico que fizesse Enzo ter uma boa impressão ao meu respeito. Todavia, minha memória não alcançou o que busquei. Minha memória tinha uma vida independente, aparentava sempre trazer à consciência aquilo que era de seu gosto e não do meu, como se tivéssemos vidas divididas.

— É um clássico romance – ele disse enquanto levava sua mão direita ao queixo. — O que mais tu gostas? – indagou. Comecei a pensar sobre o rumo daquela conversa. Tudo estava estranho, talvez porque eu nunca houvesse passado por aquilo. Porventura entrevistas de emprego fossem daquela maneira mesmo e o olhar malicioso de Enzo, eu pensei, é apenas uma afronta para ver minhas reações diante a uma sutil coação.

Pisquei várias vezes após concluir meus pensamentos e, então, acertei minha postura e fixei-me nos olhos de obsidiana daquele homem. O encontro foi brusco, nossos olhares chocaram-se como dois carros em alta velocidade. Respirei fundo, desviei o olhar. Senti-me incapaz de enfrentar Enzo outra vez.

— Ah... eu não sei... gosto de diversas coisas, senhor. – hesitei.

— Suponho que gostes de sair com amigos, namorar, ir ao cinema – deduziu Enzo.

— Não, na verdade. – eu disse. “O que ele está tentando descobrir?” – eu pensei. Olhei para suas mãos outra vez e, depois, lembrei-me do quanto as coisas haviam mudado em mim. Eu estive me sentindo incomum, com pensamentos e emoções infrequentes, duvidas singulares que nunca dominaram minha mente. Pelo menos, pelo que me lembrava, eu nunca havia me sentido tão estranha como naqueles últimos dias. Eu não me reconhecia como antes. Estava esquecendo quem eu era e, lentamente, eu adquiria certeza de que, talvez, eu nunca tenha lembrado; pois, eu nunca soube.

— Sublime? – chamou-me Enzo. O devaneio se extinguiu. — Teu nome é diferente – proferiu. Sorri, aquilo era o que eu mais ouvia na vida, certamente. E eu nunca contava a história por detrás do nome, eu apenas dizia “pois é” enquanto expressava neutralidade em minha face; não foi diferente ao ouvi-lo.

— Pois é – eu disse. Olhei para as janelas do escritório e para as persianas automáticas. Desejei levantar-me e ir embora.

— Se fores contratada trabalharás aqui nesta sala, o que achas dela? – Olhei-o, e sei que meus olhos perguntaram se Enzo havia realmente feito aquela pergunta. Enzo olhou ao redor e estendeu sua mão, como que me apresentando o local. Então notei ser uma pergunta legítima. Admirei o ambiente, principalmente os móveis rústicos, os livros em altas estantes de madeira. Visualizei dois computadores, sendo um deles sobre uma escrivaninha perto da porta. Vi um tapete shaggy meio destoante com o clima do local, porém, altamente confortável perante o sofá de dois lugares que se posicionava à direita, entre pilares. Era como uma casa com espaço aberto e amplo. Algo familiar, eu diria.

— É uma sala muito agradável – respondi-lhe com sinceridade.

— Gostas das cores? – ele indagou e eu me amargurei. Obviamente minha mudança de humor ficou evidente, Enzo me olhou com apreensão.

— Não vejo... – eu disse — Eu... tenho uma doença que não me permite discriminar cores – proferi insegura. — Tudo é preto demais ou branco demais, às vezes, em ambientes pouco iluminados, consigo apreender alguns tons mais acinzentados – conclui. Queria não precisar explicar aquilo, queria ver as cores daquela sala, queria poder, pelo menos uma única vez, caminhar sob a mais deliciosa luz solar, olhar para o céu azul, bem azul, e sentir a sensação inexplicável de ver a tonalidade das flores no topo das mais altas árvores primaveris. Eu queria tanto, pelo menos, por uma singela e frágil única vez.