Capítulo Undecim

— Lembre-se – ele disse assim que eu abri meus olhos e fui invadida por uma luz que eu bem conhecia. A luz do dia, reluzindo através das vidraças de um lugar diferente do cárcere anterior. Semicerrei os olhos, visualizei a silhueta de Forsihar. — Podes acordar de um pesadelo, no entanto, ele continuará à espreita para emergir, ainda mais atroz, assim que tu fechares, novamente, os teus olhos – ele disse. Eu estava deitada em meio a escombros e poeira.

Retomando a consciência, percebi o quanto estava fraca. Ouvir a voz áspera daquele homem fez com que meu coração sangrasse, era como se eu o sentisse esvair-se de meu peito; as veias se rompendo, o pulsar cessando n’um fúnebre epílogo. A luz de um astro na atmosfera pouco me acalentava, se eu ainda estava sob a presença de Forsihar, eu conservava-me em insuportável desgraça. Àquela altura, eu sequer sabia o que poderia salvar-me dali, nem mesmo a efígie de Stephen em minha memória ou a rosa em suas mãos; eu estava sozinha, sequer a memória da vida como era n’um outrora, longínquo outrora, quando eu ainda não existia. Nada disso era suficiente para me manter.

Desviei meus olhos às pedras úmidas quais sob o meu corpo permaneciam. Então a sombria presença de Forsihar se foi, uma porta aberta irradiava níveo fulgor e eu quase me ceguei. Desejei que meu corpo fosse capaz de ir até lá; eu desejei que a luz fosse a morte, não a quase-morte, mas a morte em si, que me tomaria plenamente e me levaria ao limbo. Quanto alívio deve advir do limbo? Uma lâmina fria, uma paisagem escura, ventos que cantam solidão. Quiçá morrer seja cair em integral nulidade, sem porquês ou sentires extremos; o fim dos êxtases e das letargias – o fatídico fim da melancolia, sem nenhum oceano, sem nenhuma penumbra. A morte como um sempiterno útero.

Se a matéria escura chorava naquele momento, sei que transformava, vagarosamente, os meus órgãos em quartzos negros, pois o lacrimar que surgira em meus olhos – era negrume; e a caligem ao redor da íris propiciou um anoitecer eclipsado – por detrás da luz violenta que pela porta adentrava, enxerguei; e o que vi foi uma rua e uma árvore. A possível liberdade fez-me questionar minha sanidade – estaria eu sendo iludida por uma miragem? No deserto áspero de meu desespero, criei uma mental redenção? Em minutos, porventura, meu cérebro desenharia a perfeita imagem de um anjo que tocaria meu corpo, envolvê-lo-ia e curá-lo-ia?

Mesmo que franzino, movi meu corpo. E aos poucos o fui movendo-o em direção à porta. As pedras debaixo de mim – os ferimentos que causavam – nada disso me impedia. Continuei. Na escuridão das retinas – cada vez mais perto – em sobrecarregado esforço dentro de um tempo que não fui capaz de mensurar – continuei. Quando finalmente enxerguei a plenitude vasta da natureza, eu soube, estava livre. Livre sobre o concreto, tendo no horizonte o arvoredo que doava oxigênio aos meus pulmões. Olhei para minhas mãos feridas, olhei para os lados, vi uma longa estrada vazia e, atrás de mim, uma casa abandonada e semidestruída.

Antes de ser capaz de pensar, um som viera estrondoso aos meus ouvidos e eu olhei para a direção do núcleo de sua difusão. Era um carro na estrada. Com toda a força que ainda me restava, levantei meus braços e implorei para ser vista; meus lábios entreabriram – como se alguma voz estrondosa fosse emergir; no entanto, somente sussurros dissiparam-se.

— Ajuda-me... – Uma esperança brotou. — Ajuda-me! – Distendi ainda mais meus frágeis braços. Então, o carro parou e uma mulher – bela como o mais divino ser – apressada saiu de seu automóvel e veio em minha direção. Seu olhar preocupado e seu toque tênue confessaram-me que não se tratava de uma ilusão.

— Menina, o que houve contigo? Oh! Meu deus! Meu deus! Teus olhos... – ela hesitou, olhou-se e expressou tristeza — Acalme-se, está bem? Chamarei a ambulância imediatamente! – Quando a vi segurar em mãos o seu celular, toquei seu braço quente.

— Stephen... – sussurrei — Chame... por... Stephen... – Seu semblante era de incompreensão. — Por favor – supliquei quase em ausência de voz — Chame-o.

— Está bem, acalme-se, sabes o telefone dele? – ela proferiu após alguns segundos de silêncio. Ditei o número e ela o anotou — Ligarei para a ambulância e depois contatarei Stephen, tudo bem? – A doce mulher envolveu-me o seu casaco, aquecendo minha pele nua. Segurei sua mão, não queria que ela me deixasse. Ela sentou-se ao meu lado e realizou os telefonemas. Algum tempo de espera e eu sinto-a afagar meus cabelos enquanto pequenas gotas de chuva caem sobre nós. — Vou até o carro pegar um guarda-chuva e um pouco de água para ti – ela diz, eu a seguro com mais força, embora com a mesma fragilidade de antes. — Não te preocupes, voltarei. – Olho-a, vejo confiança absoluta em seus olhos. Solto-a e ela segue em direção ao carro.

No segundo de solidão em que sou deixada, fecho meus olhos devagar. Sinto a chuva – liberdade – sinto a chuva em mim. Livro-me do casaco, minha pele estremece. Cada gota me limpa o ser e a ardência que se esparge me prova que ainda estou viva ou que, na verdade, finalmente estou viva. Então meu coração volta a pulsar após uma sensação perversa de inatividade orgânica – depois de sentir-me como um sarcófago. Na ausência de letras n'uma união significativa que pudesse expressar o afinco do pulsar de meu órgão vital, tórrido e afável, deixei-me apenas sentir para fazer evidente o âmago de minhas sensações e, então, por fim, ser capaz de apreciar minha própria companhia – sem o abismo, cruel e sólido, da angústia.

Tão logo, sinto outro toque sobre mim; acalora-me a face. De imediato reconheço as curvas das mãos que me tocam; a textura rígida de sua pele que por tanto tempo foi meu prazer e minha dor – minha sentença e minha esperança. Abro meus olhos. Sua escuridão me apraz.

— Mestre... – sussurro. Ele toca meus lábios e aproxima-se deles. — Mestre... – eu segredo. Um contato suave de nossas bocas, a dele tão cáustica e a minha tão gélida e insípida. Olhamo-nos outra vez.

— A acinesia forçada é o látego da consciência que definha pelas próprias falhas – ele proferiu. Seu tom, aprazível tom dominador, era também ternamente afetivo. — Não me perdoe, Sublime – ele acaricia meus cabelos, busco suas mãos, quero senti-las. — Meus erros são imperdoáveis. – Beijo-as enquanto toco o abdômen de Stephen, meu homem estava ali, o único homem que eu poderia confiar. O anil qual vi, em sonhos, nos olhos vívidos dele, ali, alcançavam um tom singular que eu reconhecia, era tão claro, da mesma forma que seu amor por mim. Perdoá-lo, perdoar-me, tudo não me vinha à mente – bastava-me estar com ele. Culpá-lo ou culpar-me, para qual finalidade? O que eu almejava era ir para casa, apenas para nossa casa. Eu queria ouvi-lo ler até o último ponto final de uma história tenebrosa e, na eutimia de seus braços, então, adormecer.

— Leva-me... à nossa... casa... por... favor... – eu disse com a voz inaudível. A fraqueza aumentava. Antes de sua resposta, fechei meus olhos e, em pouco tempo, já não havia mais seu corpo, ou o meu, restava o silêncio do delíquio. Clarões de lucidez, fugazes e ininteligíveis, em determinado instante também partiram. Um longo e vasto universo de atrozes recordações fizeram nascer um pesadelo, e de repente o plano onírico me coagia e me violava.

Era Forsihar, ele havia voltado como prometido; penetrando meu estado de sopor; entre asfixiantes flamas de um tão recente passado. Despertei assustada, minhas pálpebras abriram abruptas, no entanto não movi o meu corpo. Imediatamente, ao retomar a consciência, ouvi o som da voz de Stephen – suavizei-me. A luz tenra apaziguou meu terror, o calor das cobertas atenuou minha aflição. Olhei em direção às palavras que no ar planavam em significações. Stephen estava sentado, um livro em mãos, seriedade na fisionomia.

— “...O lato sacrilégio, putrefaz o réu – sua bestialidade regressa nefanda a seu próprio ego. A desídia como única turbação capaz de emergir em seu encéfalo.” – Stephen olhou-me, teus olhos tocaram os meus com a fugacidade característica de sua veemência – tão afetuoso, todavia, como anjo que do submundo emerge somente pela inaptidão própria de não amar.

— Este – proferi devagar e em baixo tom — Eu não conheço... – Pela primeira vez Stephen lia algo que eu não pude reconhecer; sequer uma frágil ideia que evidenciasse a origem do texto me era cognoscível. Vi-o levantar-se e aproximar-se de mim, sua mão em meus cabelos basta para aquietar meu coração e acendê-lo.

— Diga-me como estás – ele ordenou.

Fiz silêncio. Desviei meus olhos porque era um martírio dizer o que eu sentia; olhar para o mais fundo e intransitável de mim era enfrentar o vácuo árduo que me tomava. Respirei devagar e Stephen sentou-se na beira da cama em que eu estava.

— Não me prive de compreender o teu ser – ele disse.

Sei que Stephen buscava ver meu triste espírito. No entanto, diferente de outrora, eu estava vazia. Eu não conseguia sentir nada além de um grande abismo ou um horizonte displicente o qual meus tíbios olhos fitavam.

— Quando existir passa a ser nada, e sentir é uma dimensão apática, como posso fazer as palavras emergirem? – indago.