Capítulo Undeviginti

“Permanecerás no silêncio de tua penumbra
Adormecerás pela eternidade n’obscuro cinza
Antes que te assustes quand’o teu semblante
Revelar-te em memória cada dor de tuas sinas”

— O que fazes? – indago. É manhã, apronto-me para à palestra de Markus Nothr enquanto fito os movimentos de minha posse, à minha espera, discorrendo o inenarrável nas páginas em branco de seu singelo caderno.

— Poesia – proferiu. A porta de nosso aposente anuncia em seguida um visitante. É Istvan.

— Bom dia, meu caro. – Ele adentra o cômodo e se aproxima sutilmente da escrivaninha. — Bom dia, Sublime. – Ela o olha e agradece em silêncio. — Podemos nos falar em particular? – sondou Istvan com seu olhar inquieto. Caminho com ele para seu escritório após ordenar Sublime para não deixar o quarto.

"Pálido em rubro sangue, se rubro fosse perceptível

Digo não, é apenas a noite, negrume a esvair límpido"

— O que houve, Istvan? – questiono. Ele está perturbado.

— Looyse acaba de descobrir que Nothr é discípulo de Ofir, iniciaram tal vínculo há duas semanas. Se Ofir for mesmo culpado pela tragédia de tua submissa, ficará sabendo que ela está em minha casa e temo tanto por vossa segurança quanto pela fuga de Ofir.

— Temes porque sabes que é verossímil – acusei — Teremos, então, de nos afastar da irmandade por algumas horas, eu e Sublime.

— Quiçá, meu caro, tenhas que te afastares com tua posse por um dia ou dois... ou três... Nothr é convidado de honra da casa e ficará conosco até o dia da cerimônia. – Toda fúria me acomete, cólera qual mantenho debaixo de meu controle, inda que na fronte ela se evidencie. — Stephen... – lamuriou — Porventura devas abandonar essa ideia de vingança... Sei que o que ocorreu é árduo, contudo, poderá lesar Sublime ainda mais. – Sorrio por gana e incredulidade — Falo com seriedade, Knill, o furor está cegando os teus olh... – Antes que sua maçante insciência se alastrasse em alarde aos meus ouvidos, em seu pescoço envolvo minha mão esquerda e a ela doo força inestimável. Istvan reluta para livrar-se d'ausência de ar, enquanto meus olhos, sei, expressam a chama do abominável.

— Aniquilarei aquele verme e qualquer outro que se fizer obstáculo no caminho qual sigo, rumo ao meu objetivo. – Solto-o, o impacto o faz cambalear; ele respira ofegante, assustado; não sinto clemência. Alguns segundos se passam até que ele se recomponha e mire-me em seguida, todo meu corpo inalterado com seu choque.

— Olho por olho e todos ficaram cegos. – Istvan abre a porta de seu escritório. — Vá em frente. E não conte comigo. Estou cansado de teu temperamento, de tua erudição hipócrita – Caminho em direção à porta. — Assim como tu, desejo vingança, pois considero a dor de Sublime; a diferença é que não me deixo ser controlado por esta sede. Perderás muito, Stephen Knill, se continuares. Ofir é poderoso e tu sabes disso. – Saio de seu recinto e compreendo que algumas relações terão de morrer para que a glória de minha vingança alcance o ápice de sua realização. Eu não temo Ofir, e minha coragem me dispõe à perder tudo para que eu não jaza perdido.

Ao me aproximar do quarto, noto a porta semiaberta. Decerto que Sublime não teria deixado o aposento, pois fora ordenada a permanecer. Instigo-me com aquele fato peculiar e, sorrateiramente, abro a porta um pouco mais. Vejo um homem caído sobre o tapete e vejo Sublime sentada, de pernas cruzadas, ao lado do homem, olhando-o fixamente. Há sangue nas mãos de minha posse, há sangue no pescoço do indivíduo estirado.

"Ela é isso, dessa forma; deidade lume de face apática
Não alcança meu Ser, não surpreende minh'alma fria
Não a sinto, não me sinto, todo o nada incólume oblíquo
Faz-se sementes d'este meu infindo jardim chuvoso"

Devagar entro no aposento e fecho a porta sem que nenhum ruído se alastre. Tranco-a. Sublime, estagnada, em seu próprio universo; há sangue em seu caderno e no seu instrumento de escrita que estivera sendo, por tantos dias, seu uno sentido. Abaixo-me ao lado dela, afasto de seu rosto as finas mexas de seu cabelo. Há lágrimas nascentes vindas do rio de seu deserto.

— Ouvi passos... diferentes dos teus passos... escondi-me atrás da porta, amedrontada... Então ele invadiu o quarto e disse: "Onde estás, criança? Vamos acabar logo com isso, tu nunca devias ter sido liberta do cativeiro de Ofir". Ao meu lado, nada havia... – Ela tremeu, completamente frêmita e fantasmagórica. Fitei novamente suas mãos ensanguentadas e visualizei a singela corrente de Sirehnnia envolvida à seiva e à cútis ferida. — O empurrei, com toda a força que podia, ele caiu de costas ao chão e eu... joguei-me sobre ele envolvendo seu pescoço com ela – referiu-se ao colar. Enxuguei suas lágrimas, acariciei seu rosto. Sirehnnia é um quartzo teso, não se romperia a menos que estivesse sobre a pressão de outra corrente de Sirehnnia, ou de um Diamante. A pele humana, os ossos humanos, a carne humana não suportaria uma corrente feita de Sirehnnia, por mais fina que fosse.

Agora as mãos de Sublime estavam gravemente lesadas, pois a força que fizera para asfixiar o homem, não só abscindiu profundamente seu pescoço, como rasgou as palmas de suas mãos vestais. A dor certamente estava insuportável e Sublime só a tolerava em razão da adrenalina em suas vísceras. Aproximei-me do rosto do cadáver para reconhecê-lo. Ali jazia Markus Nothr. Ouço Sublime lamuriar e rapidamente a envolvo, o choque está passando e a realidade a começa apavorar. Levanto-a e a levo ao banheiro, cingida por meus braços, guiada por seu Mestre.

Iniciei a purificação de suas abscisões e, após intenso curativo, a fiz sentar-se à poltrona. Por sorte todo o sangue de Nothr se acumulara sobre o tapete; todos os móveis e, também, o chão, estavam preservados. Envolvi o pescoço de Nothr com um pano úmido, para estancar a ferida. Não sabia como realizar aquela limpeza, tampouco como livrar-me daquele corpo; fiz o que pude e como pude. Tanto a peça de tecido, quanto o corpo pálido foram colocados no baú da cama qual dormíamos; feito de madeira maciça, selado com perfeição; era em si o lugar mais adequado para proteger os vestígios; ou, ao menos, o melhor lugar possível naquele momento.

 Gostaria de adentrar tua mente – digo, agora sentado à cama após exaustivo ofício. Sublime olha-me.

— Eu deveria sentir culpa? – indaga-me.

— Houve ímpar motivação para o ato, diga-me qual.

— A confissão... A voz... Ele era um dos homens que estavam lá... Quis destruí-lo tal como gostaria de destruir minhas lembranças. – Sublime se levanta, devagar caminha. Senta-se frente à escrivaninha. — Não sinto culpa... Não tenho compaixão... Talvez eu tenha... me tornado como eles...

"Rezo adeus, aos inexistentes acima d'atmosfera.
Este réu tem minha face, tuas mãos redigem a verdade
Não me veste mais o manto da quimera".

~
Leia Também:

SublimeOanna SeltenComentário