Capítulo Unus

Ele fitava meus olhos com as suas pálidas íris. Seu corpo encostado no batente da porta de afzélia dava forma à sutil escuridão que, certamente, preencheria a plenitude do cômodo se não fosse a existência de uma luz tenra a propagar timidamente. A luz vinha do abajur cuja cúpula curvada impedia alardes luminescentes. Isso tornava tudo mais confortável.

Eram doze horas da noite, eu vi pelo relógio analógico com algarismos romanos que estava no pulso de Stephen, destacando seu braço, como se estivesse anunciando, constantemente, a sua força. Minha pele tremia pela ardência firmada, eu estava sentada na cama. Stephen ainda trazia consigo um semblante obscuro, o mesmo que o dominava enquanto me feria com suas próprias mãos há duas horas. Nada fere mais do que aquelas mãos intensas. O relógio sabia disso, assim como eu. 

Dedos cumpridos, ossos rijos. Essas eram as mãos dele, e elas me batiam porque Stephen era sádico. No entanto, no limiar de seu sadismo, havia um sentimento que jurei ter compreendido no dia em que o conheci; exatamente quando seus olhos me fitaram, exatamente como estava acontecendo naquele instante, de novo.

Stephen... Ele é silêncio no calar da noite, um silencio imponente. Ele me guia na sua própria obscuridade e eu me entrego a ele, pois, o amo. Sei que sua energia desvia minha sanidade e eu me imerso em uma realidade abstrata, complexa e irreal. Um espaço meu, um lugar para inteiramente sentir. Stephen... tão longe e tão perto, tão amargo e tão doce. Queria, efetivamente, enxergá-lo. Ir além de sua sombria constituição. Ele sabe que eu o aprecio na penumbra, porém, quando posso, graciosamente peço para que me conte a verdadeira cor de seus olhos.

Eu chamo de Penumbra (paene+umbra) o estado que minhas retinas permanecem dia após dia. Stephen era condescendente com tal sina, e nos pedidos airosos que eu dirigia a ele, pacientemente, ele os atendia. Como naquela noite, ele falou-me sobre o anil, este que chamo de pálido. E falou sobre o oceano, sobre as tempestades, sobre as flores e sobre o fogo. Tudo azul, puramente índigo. Eu morreria para poder entender o verdadeiro significado dessa cor. Após ouvi-lo, guardei, então, a consternação em meu peito e agradeci pela benevolência de meu Mestre, enquanto isso eu morria, sim, eu morria, mas, a morte que me atingia era a angústia que não ofereceria, no fim, o prazer do significado.

Stephen era meu Mestre, e era assim que eu deveria chamá-lo sempre que estivéssemos a sós. Segunda regra, eu não me esqueço. Da porta à sua poltrona, ele se aproxima de mim e senta-se. Eu podia vê-lo observar o sangue suave em minha pele enquanto planejava seus próximos atos. Ele estava bonito, vestia um blaiser peaked em corte inglês. Mas sua camisa estava aberta e seus cabelos em tênue caos; demonstrava o seu espírito selvagem. Outrora eu não pude notar sua aparência, eram tantas as lágrimas embaçando a realidade.

Antes de nascer um sorriso de paixão juvenil em meus lábios, Stephen levanta-se e vem até meu corpo. Eu não me movimento, continuo com os braços ao redor de minhas pernas. Era a sétima regra: sob sua presença, estagnar e obedecer. Mas, além da regra, eu evitava movimentar-me quando o sadismo o dominava mais do que a razão. Eu temia. E mesmo no temor, era absolutamente incrível vê-lo tão alto, tão admirável, tão deus. Ele levanta meu queixo porque sabe que eu o contemplarei assim que meus olhos o fitarem no alto da sua magnificência.

Seus dedos acariciam meu rosto e tocam algumas feridas em meus braços, porque Stephen precisa ter ciência da sua crueldade. Frios dedos, gélida atração. Ele abaixa-se e abre minhas pernas, separa minhas mãos, toca lentamente minhas coxas impuras. Eu sei que ele vê as equimoses que me causara e pensa no quanto são belas. Eu sei, pois, sua expressão deixa evidente. 

Quando termina a contemplação dos efeitos da sua fereza, ele gesticula ordenando que eu deite de bruços. Obedeço. O lençol é negro, envolvo-me nele, aperto-o e o levo próximo às narinas. O perfume é tão frágil. Stephen sobe na cama, eu o sinto, meu corpo treme. Tudo fica rapidamente glacial e uma brisa que vem da janela denuncia minha condição submissa. Stephen toca minhas nádegas e, de súbito, num movimento fugaz e árduo, ele me bate brutalmente. O som ressoa por todo o quarto.

Permaneço em silêncio, mas aperto minhas pálpebras. Décima regra: gritar, gemer ou lamuriar, somente quando permitido; caso contrário, mais dor me seria dada. Percebo-o afagar onde batera. Sua mão esquerda desliza em minhas costas e em minha nuca, aproxima-se de meu rosto e apazígua meus lábios, seus dedos adentram minha boca, eu os chupo devagar

Sensações etéreas e constantes. Ele sobe em meu corpo e prensa minhas costas contra a cama, puxa meus cabelos em seguida e eleva meu tronco e meu crânio. Coloco minha mão em sua mão, como que em súplica. Sinto-me definhar em aflição e não consigo entender o porquê. Amar e temer a personalidade dele, chorar e lubrificar a vagina no mesmo átimo de segundo. Morrer e viver.

— Tua pele rubra é meu fascínio. – ele diz enquanto volta a torturar-me com toques violentos. Eu não sei o que ele quer dizer, então, indago-lhe e imploro-lhe que descreva a cor rubra assim como fizera com o azul de teus olhos, porém, ele se recusa. O espelho na parede ao lado esquerdo da cama revela minha cinzenta realidade, Stephen ordena que eu crie uma descrição para “rubro”, a partir da paene umbra, para torná-la uma cor única e singular que possa ser reconhecida e destacada por mim entre os demais tons escuros que eu conhecia. Ambos ficamos em silêncio, ele me fita pelo espelho e não me toca, espera-me cumprir a ordem dada.

— Mais escuro que a noite mais escura. – profiro. Eu vi a mancha em minha pele nívea e essa era a sua cor. Ele acaricia meu rosto. Sua mão conhecia muito bem aquela carne, meu sistema nervoso central já enviava as informações que prediziam o próximo ato. Stephen segura com firmeza meu pescoço e começa a apertar-me, enforcar-me. A respiração é interrompida. Ele se aproxima de meu ouvido enquanto continua olhando-nos pelo espelho. 

— Minha! – Seguro sua mão para tentar afastá-la o suficiente para captar um pouco de oxigênio. — Tu és minha! – Ele aperta com mais força, minha visão se torna turva, o sangue é impedido de circular, sinto-me fraca, inerme. Lentamente vou perdendo a consciência. 

Quando ele me solta, inspiro veementemente. Stephen levanta e meu corpo se contrai. Eu o olho em seu reflexo. Ele caminha pelo quarto, pensativo, com uma de suas sobrancelhas arqueadas dando-lhe um ar dissoluto. — Levanta-te! – Ele ordena. Eu o obedeço. Fico de pé, com a cabeça baixa, mãos entrelaçadas atrás das costas. Stephen segura meus cabelos e, naquele instante, fito seu olhar tão perto do meu. Um maligno olhar que, dentro do abismo das pupilas, se fazia lúgubre. Quando cruzamo-nos pela visão, ele sutilmente estagna, como se revelasse algo. Mas, nós nunca falamos a respeito.

— Mereces um castigo acentuado, pois em teus íntimos pensamentos, tu te afastas de teu dono. – Stephen me arrasta para a sala de estar, puxando-me os cabelos, logo após sussurrar-me palavras irrefutáveis. E essas palavras vívidas em minha memória me fazem questionar se, de fato, afasto-me dele quando me oculto em minha mente. Na mesa de centro, ele me coloca de joelhos. — De quatro, agora! – ele ordena. Esta era a sua posição favorita, pois dizia que uma verdadeira submissa sempre deverá servir seu Mestre naquela posição, porém, nem sempre ele me colocava daquela forma, apenas em ocasiões especiais e, nestas, eu não recebia prazer, apenas dor.

O prazer e a dor... tão confundíveis. Muitas vezes eu me sentia sofrer diante o sadismo de Stephen e, nestas mesmas vezes, era como se eu estivesse viva e o prazer tomasse conta de minha alma. Picos, quedas, ascendência e decadência. Às vezes, tão abstruso, que me fazia chorar. A indagação era nítida e eu pude enfrentá-la naquele instante. Eu verdadeiramente gosto do sadismo de Stephen? – pensei enquanto o via se retirar da sala seguir rumo aos quartos da casa. Permaneço imóvel até ser invadida por uma lembrança.

“Um dia lerei teus pensamentos, todos eles. E, neste dia, serás castigada como jamais fora.” – Proferiu-me numa certa noite em que jantávamos em Nemmesi. Meu Mestre, quando se tornava ébrio pelas bebidas quentes que apreciava, jogava-me ao chão e fazia-me sugá-lo até minhas forças acabarem, até meu maxilar anestesiar-se. Foi o que ocorrera naquela noite do jantar em Nemmesi. Quando me lembro disso, eu penso e recrio as expressões que eu fitara em seu rosto. Eram expressões sádicas e frias, como hoje, expressões que as autoridades dizem que todos devem se precaver ao notar.

Ouço ruídos de ferro, a lembrança desvanece. Stephen trazia as correntes quais denominava Incubus. Como um demônio do sono, elas me enfraqueciam. Ao serem envolvidas em meu corpo durante longos períodos, sendo que, muitas vezes, me suspendiam no ar, meu corpo tornava-se vulnerável e minha mente, longe de Stephen e na presença das correntes, era como um precipício de densa solidão.

— Expresse-se como desejar, minha Sub. – diz Stephen. Ele me prende sobre a mesa com suas correntes. Um açoite com tiras de couro sintético e com pequenas taxas de cobre foi o objeto escolhido para minha tortura, esse era seu preferido. O açoite feria de imediato, como leves arranhões de gatos. Ele encostava-se à pele e fervia. Não demorou a senti-lo em minhas pernas e em minhas nádegas. Eu bradei a dor com voz verossímil e melancólica. Eu verdadeiramente gosto do sadismo de Stephen? Ele batia e batia e batia. Cada vez mais. Algumas cachoeiras nos meus olhos e uma voz mais trêmula o fizeram parar. Ele abaixa-se e mira-me com seu olhar obstinado. 

— Tua dor... Excita-me! – ele diz e eu, entre soluços, permaneço taciturna. Ele se aproxima e beija meus lábios. Eu, acometida por um absurdo temor, olho-o e percebo que há uma linha tênue que interliga os meus limites às suas vontades. Esta linha poderia... se romper?

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