Capítulo 1 - No Início Da Primavera

Cântico do Alvorecer III.png

Sephir cuidava de beija-flores em seu singelo jardim de inverno; para tanto, plantara Salvia Splenden — as mais belas, rubras e intensas; Tagetes Patula, para ascender cores outonais aos pequenos pássaros e, por fim, suas preferidas, as Fuchsias. Estava, decerto, muito satisfeita com aquela pequena casa qual alugara para passar seus próximos sete anos de estudos na Universidade Lesìe Vehnn Orhdesa localizada na grande cidade; pois, embora fosse mesmo exígua, a construção possuía um encanto sensível, tenro, tal como a personalidade de sua nova inquilina. Sephir Innae era descendente de famílias tradicionais de Illusìhan, uma antiga pólis do continente europeu; isso explica alguns de seus hábitos, como tomar chá de flor de açafrão, limão da pérsia, canela e mel de Suhnaàn — um espécime de cactos cuja flor concebe orvalho doce por meio de seu caule até suas pétalas. Este chá, conhecido por Leqorhm, era de um ímpar sabor agridoce e todas as manhãs era preparado por Sephir.

Há um mês, morando em seu novo lar, já nutria bons pressentimentos sobre os próximos anos de sua vida; estava empolgada e pensava até mesmo em adotar um pequeno animal de estimação, talvez um Lihbrili; sentia que uma companhia do tipo poderia ser agradável. “Lihbrilis são ágeis, afetivos, vivem por cerca de dez anos humanos se forem bem cuidados; eu recomendo que você estude bastante antes de adotar um, para entender como são e o que precisam. Tenho dois em casa, uns amores!” — disse Cecílie, uma das vizinhas de Sephir, morava há mais de trinta anos na casa ao lado direito; gostava de conversar sobre animais, pois era veterinária. “Se quiser mesmo adotar um, recomendo conversar com a Lince, sua vizinha ali do outro lado, eu não a vejo faz um tempo, mas me lembro dela me contando que o casal de Lihbrilis de seu primo havia tido filhotes no mês retrasado” — contou Cecílie. Como Sephir estava entusiasmada, decidiu tocar a campainha de sua outra vizinha para não só perguntar sobre os pequeninos, como também para conhecê-la; para Sephir, também vindo dos ensinamentos tradicionais, era importante saber quem mora ao lado.

Sephir batera à porta algumas vezes, no entanto, sem resposta; até que ouvira uma voz grave e veemente atrás de si, virou-se sutilmente e o que viu fora um homem alto, cerca de quarenta anos, com olhos virentes e barba grisalha. Sorriu para ele.

— Procura por alguém? — indagara à Sephir. 
 — Sim, uma moça chamada Lince.
 — Talvez você tenha errado de endereço; somente eu moro aqui.
 — Mora há muito tempo?
 — Não, a mudança foi recente. Pode ser que Lince fosse a inquilina anterior.
 — Sim, talvez — Sephir sorriu outra vez sem compreender ao certo o porquê; na verdade sempre gostava de sorrir, pois era espontânea.
 — Sou Dohm Hhreom, mas pode chamar apenas de Dohm.
 — Qual a origem do seu nome? — Dohm sorriu diante a pergunta, embora a ouvisse com certa frequência, não eram de tanto ânimo como esta.
 — Eu não sei ao certo, minha família era Dinamarquesa por um lado, Alemã por outra. Acho que inventaram meu nome. — Dohm novamente sorriu.
 — Entendo… Pensei que pudesse ser Illusìhano, como o meu. Eu Sou Sephir Innae, mas pode chamar só de Sephir.
 — Prazer em conhecê-la, Sephir.

Após o cumprimento, ambos permaneceram fitando um ao outro por certo tempo, segundos que soaram horas. Dohm era um homem sério, educado e com certa polidez exacerbada, de tal modo que raramente fitava uma mulher por mais do que um átimo de relance; tampouco flertava ou se permitia desejar um corpo feminino somente por seu resplandecer venusto. Gostava de relações estáveis, em especial amizades duradouras; no entanto, diante Sephir, não havia como resistir a fitá-la em seus olhos castanhos, era impossível deixar de admirar as maçãs rosadas de seu rosto e o pálido sorriso harmonioso; os lábios rubros,então, tão úmidos e suaves, ascendiam Dohm a certo interesse invulgar. Somente quando despediu-se de Sephir e adentrou sua casa, percebera que havia se comportado de maneira atípica, principalmente ao deduzir que Sephir possuía entre dezesseis e dezoito anos de idade e, portando era nova demais para despertar o atípico em um homem experiente como Dohm. Sephir, na verdade, tinha dezenove anos, e retornou a bater à porta de Dohm alguns minutos depois.

— Oi — proferiu com leve hesitação — Pensei que… gostaria de tomar um chá mais tarde ou algo do tipo? — convidou. Sephir, ao contrário de Dohm, sentiu-se afetivamente envolvida a ele e ela não pensou ser isso um absurdo, sua inocência ainda corria ternamente em suas veias feminis, quiçá seu encanto por Dohm emergira por ele ter uma aparência tão similar àquilo que ela imaginou ser a aparência de seu pai, o qual nunca conhecera. Sephir sentia uma ausência, pois sua antiga casa era sempre cheia, havia suas irmãs, mãe e mães de primas, tias e avós, mas, todos os homens da família raramente estavam presentes; isso a deixava um pouco incerta e curiosa sobre o gênero masculino.

Dohm não soube o que responder a princípio, foi pego de surpresa; os olhos de Sephir brilhavam, grandes, esperando pacientemente por uma resposta. Dohm sentiu-se pressionado por eles, eis outra coisa atípica, pois, diferente de Sephir que nascera em um lar cujo princípio era a independência de gênero, tanto que os homens quase nunca apareciam e todos as mulheres eram autossuficientes, Dohm veio de uma família patriarcal e só mais tarde, após seus trinta anos de idade, começou a modificar sua apreensão acerca do mundo que, àquela altura, já repudiava os pilares patriarcais. Contudo Dohm não perdera algumas de suas referências, ainda sentia que ser o dominante era um de seus objetivos em relacionamentos amorosos e, além disso, internalizava que um homem jamais deveria ser intimidado, deste modo, desenvolver a força e a capacidade de autocontrole era lei. Dohm estava sempre em conflito com o que aprendeu ao longo da vida e com o que aprendeu na infância e, de fato, todas as pessoas do mundo viviam, em essência, o mesmo conflito da infância com a vida adulta.

— Eu não… — Dohm estava prestes a dar alguma desculpa para não aceitar o convite, mas seu telefone tocara e Dohm teve de pedir licença para atender. Enquanto isso, Sephir vislumbrava a casa e guardava à memória todos os detalhes que lhe chamavam atenção. — Sephir, estou atolado de trabalho hoje; quem sabe outro dia?
 — Claro… — Sephir sentiu-se envergonhada diante àquela rejeição, sentiu que estava agindo como uma tola e desejou nunca mais olhar para Dohm; obviamente que Dohm notara isso, pois era bom observador. — Desculpe por atrapalhá-lo… — Sephir seguiu para sua casa e Dohm sentiu-se culpado por mentir à Sephir, pois naquela noite ele estava sem trabalho algum para realizar.