Capítulo 2 - Flores e Frutas

Cântico do Alvorecer III.png

Sentou-se próxima à cozinha, respirando lentamente. Olhou-se no espelho decorativo da sala-de-jantar, espelho cujo formato era uma rosa; viu-se em partes, como se apétala; respirou mais forte e cerrou as pálpebras. “Eu sou uma idiota… O que tenho na cabeça?” — pensou Sephir que, de súbito, assustou-se com a campainha, pois, seu coração previu ser Dohm à porta e Sephir estava extremamente ciente de que não almejava vê-lo outra vez. Levantou-se às pressas, quase pairou pelo ar com seu vestido azul-marinho, descalça caminhou sorrateiramente pelo carpete, olhou de soslaio pela cortina-pólen; se fosse Dohm, ela fingiria estar dormindo, ou tomando banho. Quando Sephir visualizou o rosto de sua irmã Lallina, sentiu um inesgotável alívio. Esvoaçou-se como uma semente alada e recebeu a ilustre visita.

— Oi, Lalli! — Abraçaram-se com carinho, Lallina acariciou os cabelos de Sephir. Adentraram juntas ao aposento e Lallina notou que sua irmã estava agitada.
 — Hum… — lamuriou Lallina — “Há algo de pobre no reino da Dinamarca” — declamou seriamente. Lallina amava Shakespeare e inspirou-se nele para decidir sua profissão como atriz, Sephir sentiu seu coração palpitar ao ouvir “Dinamarca”, lembrou-se de Dohm: “…minha família era Dinamarquesa por um lado, Alemã por outra” e tremeluziu frente à sua irmã. — Conta, o que houve, Seph?
 — Eu fiz uma besteira… — confessou Sephir com angústia, sentou-se ao sofá em seguida.
 — Geralmente quando você diz isso é porquê quebrou um prato ou deixou de estender a roupa no varal — disse Lallina entre risadas, Sephir tentou sorriu, mas o máximo que fez foi choramingar qualquer coisa inaudível.
 — Dessa vez a besteira foi maior… Convidei o vizinho para tomar chá. — Lallina caiu na gargalhada, despejou seu corpo no sofá, ao lado da irmã, e prosseguiu na risada.
 — Fala sério Sephir! Ele aceitou, provavelmente, né? — ironizou.
 — Não aceitou, claramente inventou uma desculpa. Quer saber? É um cara incapaz de apreciar as coisas boas da vida — justificou-se. Lallina abraçou a irmã. — É que ele parecia com nosso pai, Lalli, eu acabei me envolvendo, sei lá…
 — Sephir você precisa parar com isso, a gente nunca viu nosso pai, mamãe o odeia e devemos respeitar isso, se o cara é tão odiado assim, deve ser um babaca. Além do mais, você vai ficar projetando as coisas nos outros homens e isso não é legal.
 — Eu sei… É que sinto falta, sei lá…
 — Falta de quê? Larga disso menina, vai viver; seja independente!
 — Está bem, eu sei, eu sei… — reclamou Sephir levantando-se em seguida rumo à cozinha. Lallina seguiu-a.
 — Fala para mim, como é o vizinho?
 — Não quero falar disso — expressou enquanto entornava suco de laranja em dois singelos copos.
 — Diz pra mim! — suplicou.
 — Não, Lalli, que chatice!
 — Diz… diz… diz! — rogou ainda mais intensamente. Sephir respirou fundo.
 — Grisalho e alto, pronto, bebe aí o suco! — preceituou. Lallina bebeu alguns goles, sem tirar os olhos de sua irmã. Mas sua tentativa de persuadi-la caiu por terra quando, pela segunda vez, tocaram a campainha da casa. Ambas olharam para a porta.
 — Ai meu Deus…— exclamou Sephir.
 — Relaxa, esse cara certamente não vai aparecer depois de ser convidado para um chá; homens gostam de cerveja, vinho, uísque e até suco, mas chá? Quem é que gosta de chá? — Sephir mirou, com ares de repulsa, sua irmã que apenas divertia-se implicando cada vez mais com ela.

Tomada pela raiva e ansiedade, Sephir somente seguiu em passos longos até a porta e abriu-a, esperava que fosse Kienn, sua outra irmã que havia, há pouco, mandado-lhe uma mensagem, mas o ilustre visitante era Dohm Hhreom. Os olhos de Sephir expressaram espanto e os de Lallina estranheza e fascínio.

— Olá, Sephir… Eu… Meus compromissos foram desmarcados… Podemos tomar aquele chá? — Lallina soltou uma leve gargalhada ao ouvir Dohm e, tanto ele quanto Sephir, olharam para Lallina.
 — Desculpe — tossiu — Engasguei aqui… com o suco… — mentiu. 
 — Claro… entre, Dohm.

Sephir estava enrubescida como um morango, em sua coluna descia um sutil arrepio, frio suor; e ela tentava transparecer tranquilidade. Dohm entrou em sua casa e cumprimentou Lallina, apresentando-se; foi convidado a se sentar frente ao balcão da cozinha, em uma das confortáveis cadeiras, ele aceitou.

— Qual a sua idade, Dohm? — indagou Lallina. Sephir a fitou novamente com reprovação.
 — Cinquenta, e a sua? — questionou apenas por educação e não porque realmente desejava saber. Lallina debruçou-se sobre o balcão.
 — Eu tenho vinte e um e minha irmã tem dezenove! — enfatizou.
 — Hum — Dohm tentou demonstrar alguma coisa que fosse mais cordial do que a total indiferença que ele sentiu a respeito da idade das meninas. Sephir aproximou-se dos dois.
 — Quer escolher seu chá? — perguntou à Dohm mostrando-lhe o seu armário com vários potes de vidro e incontáveis tipos de ervas para chá. Para visualizar melhor, Dohm teve de virar-se.
 — Muitas opções aqui, Sephir… Hum… Deixe-me ver… — Dohm lia atentamente cada rótulo, contudo, por um instante, fitou Sephir que aguardava pacientemente. Quando Sephir notou que estava sendo vista, tornou-se rubra outra vez. — Recomenda algum deles, Sephir?

Santo Cristo, que vergonha” — pensou consigo mesma na tentativa de encontrar alguma salvação para a situação qual estava. Seu corpo, agora quente, transpirava um pouco mais. Tudo isso porque, agora, Sephir estava frente à Dohm e tudo o que ela conseguia fazer era repetir em sua mente o momento em que o convidou para tomar o chá como se fossem dois velhos britânicos.

— Eu… — iniciou Sephir.
 — Que tal shatavari com canela e Ginseng? — propôs Lallina que divertia-se, ainda, com aquela situação e, como não poderia deixar de fazer, soltava suas intrínsecas piadas.
 — É… Lallina?
 — Isso, Lallina — respondeu sorrindo.
 — Lallina, eu gosto de canela, mas Ginseng e Shatavari são intensos de mais por conta de seu alto teor de estímulo sexual — Lallina abandonou o sorrio para vestir-se de assombro — Ainda estamos no meio da tarde, talvez seja mais agradável algo suave. — Lallina não esperava ser descaradamente descoberta em sua supra-piada de provocação. Engoliu à seco e sorriu envergonhada, Sephir, agora, é quem gargalhava , mas internamente, da situação de sua irmã. — Então, diz para mim, Sephir, o que recomenda?
 — Bem… está um dia morno… nessas situações gosto de misturar flores e frutas… O que acha de hibisco com laranja? — sugeriu. Dohm sorriu.
 — Perfeito! — disse Dohm. Lallina revirou os olhos, pois apreendida certo clima entre Dohm e sua irmã, talvez não um clima romântico, tampouco sexual; um clima que ela definiria como “tédio afetivo”.
 — Bem, acho que deu minha hora; nunca paro para orvalhar os Suhnaàns — Lallina atirou sua última pseudo indireta. “Parar para orvalhar os Suhnaàns” é um ditado muito parecido com “Ficar de vela”, ele é usado, também, para referir-se a casais muito românticos. Dohm sorriu em deboche ao ouvir Lallina que retirava-se do recinto após pegar uma nectarina do balcão. — Prazer conhecê-lo, senhor! Tchauzinho, maninha — Sephir e Lallina abraçaram-se carinhosamente.

— Você me paga — sussurrou Sephir ao ouvido de Lallina.
 — Ele está afim do seu chá — sussurrou Lallina. Sephir, apesar de estressar-se um pouco, era fascinada por sua irmã e adorava as brincadeiras e tiradas que ela sempre dava, tal como esta última que, claramente, continha conotações quais nenhuma outra pessoa, no mundo inteiro, conseguiria dar tal como sua irmã o fazia. Despediram-se, Sephir fechou a porta outra vez e olhou para Dohm.