Capítulo 3 - Pessoas São Livros

Cântico do Alvorecer III.png

Sephir sorriu, ainda tímida, e foi verificar a temperatura da água após posicionar as chávenas no balcão. Dohm, em silêncio, somente e seguia com o olhar, mas ela estava diferente, um pouco menos espontânea que da primeira vez em que a viu há cerca de uma hora. “Devo me desculpar pela mentira? Devo… o que fazer para deixá-la à vontade? Está na própria casa afinal…” — ponderou. Sephir separava as flores e cortava as laranjas.

— Sephir… — chamou Dohm. Olharam-se. — Você parece desconfortável, posso ir embora se desejar. — Sephir respirou fundo e apoiou-se na pia, perto do fogão.
 — Achei que fui meio idiota ao te convidar para tomar chá, viu como a Lalli estava rindo? Ela estava me zoando — Sephir sorriu ao lembrar da irmã — Ela acha que ninguém gosta de chá, a não ser velhos britânicos. — Dohm gargalhou ao ouvi-la.
 — Eu gosto de chá, Sephir — disse entre risos enquanto levantava-se para ajudá-la com as laranjas. — Eu só não aceitei porque fui pego de surpresa, tínhamos acabado de nos conhecer, eu tinha acabado de chegar em casa. Eu gosto mesmo de chá. — Sephir difundiu no ambiente um sutil riso fugaz ao ouvir a última frase de Dohm. — O que foi? — ele indagou.
 — Desculpe… Lembrei do que Lalli disse “Ele quer beber o seu chá” — proferiu imitando a irmã. Dohm gargalhou novamente. Entreolharam-se. Os olhos reluziam. — Ela sempre diz essas coisas com conotações esquisitas. — revelou Sephir, voltando-se às laranjas, agora para espremê-las.
 — Quais conotaçõ… — Antes de Dohm completar sua frase, vários finos jatos de suco de laranja espirraram-se à sua face. Sephir exclamou, espantada, buscou rapidamente um pano de prato.
 — Desculpe, desculpe… — pediu enquanto limpava o rosto de Dohm. Enrubesceu, pela terceira vez, logo que sentiu as mãos dele tocando-lhe os braços para interromper o movimento que ela fazia. Olharam-se, mais perto um do outro. “Santo… Cristo… que dia horrível…” — pensou Sephir.

— Está tudo bem — Hhreom disse, ele simplesmente estava observando Sephir e segurando suavemente seus braços. Dentro de si um vazio sombrio despertava, era como se estivesse desprovido de todos os seus pensamentos, de toda a realidade. Costumava ser fácil para ele situações corriqueiras, mas não aquela; ou não seria aquela uma situação tão corriqueira assim? Sabia que precisava parar de olhá-la daquela forma fixa, porém nele estava o vão alastrando-se em seu ser, como um entardecer, e ele apenas queria olhá-la.

— Tudo bem mesmo, Hhreom? — indagou Sephir, seriamente.
 — Tudo bem — Dohm a soltou. — Acho que podemos nos servir do chá — Sephir sorriu ao ouvi-lo, sentiu-se alegre.
 — Sim! Vamos tomar na sala, é mais confortável. — Dohm sentou-se primeiro, no sofá ao lado da escrivaninha; Sephir sentou-se ao seu lado. — Mora aqui há muito tempo? Aqui não, na casa vizinha?
 — Mudei hoje, mas minhas coisas já estavam aqui há uma semana.
 — Onde você morava antes?
 — Sempre aqui na cidade, em apartamentos.
 — Por que mudou? Ah… desculpe fazer um monte de perguntas… — Sephir abaixou sua cabeça e Dohm, que estava ao seu lado, a ergueu novamente, tocando, suave, seu queixo; soltou em seguida, quando já podia vê-la em seus olhos brilhantes.
 — Pode perguntar, Sephir; eu não sou um monstro, embora pareça. — Dohm sorriu.
 — Você não parece um monstro!
 — Hum… nem um velho britânico? — Sephir gargalhou, meiga, dobrou suas pernas, ajustou o vestido e ficou de frente a Dohm, mesmo que ainda sentada no mesmo lugar.
 — Cinquenta anos não é velho; oitenta sim. — Dohm sorriu e bebeu seu último gole de chá.
 — Eu sempre preferi casas; estava exausto de morar em apartamentos. Decidi comprar um terreno, próximo daqui, usar minhas economias e erguer uma casa do meu gosto. Enquanto isso, aluguei essa, que é mais barata que um apartamento; assim posso usar o máximo de meu dinheiro para as obras.
 — O chá estava bom?
 — Sim. — Após a resposta de Dohm, Sephir colocou sua xícara na mesa de centro e apoiou-se melhor no sofá para poder olhar seu conviva mais de perto.
 — Eu prefiro casas também, entendo um pouco como você se sente. Bom, a partir de hoje seremos oficialmente vizinhos por um tempo; você gosta de festas?
 — Não gosto, você organiza festas aqui? — Dohm perguntou de modo descontraído.
 — Ah, não; sou bem silenciosa, prefiro livros, flores, músicas calmas. Fico feliz que não teremos de reclamar um do outro para a polícia. — Dohm gargalhou ao ouvi-la. Ele realmente gostava da companhia de Sephir e a recíproca era verdadeira. Ele apreciava a espontaneidade dela, o cheiro doce de camomila esvaindo de sua pele macia; gostava também da leveza de seu caminhar e das conversas maviosas e naturais, bem como a inteligência de seus diálogos; ele também gostava do sorriso, dos lábios simétricos, das mãos pequenas, dos cabelos lisos, do vestido; absolutamente tudo era agradável exatamente como era.

Sephir, por sua vez, sentia que estar com Hhreom era como estar livre para ser-se plenamente, sem barreiras; as relações de Sephir com a família ou amigos não eram tão íntimas, embora se tratasse da família e dos amigos; ela sentia necessidade de conhecer alguém totalmente diferente das pessoas quais conviveu durante a vida. Dohm era assim, diferente; erguia a sobrancelha esquerda e seus olhos mornos se tornavam febris, sorria de canto, lentamente, mostrando a covinha de seu rosto e seus gestos eram sempre tenros, centrados, como se Dohm sempre soubesse o que estava fazendo. Sephir, no entanto, mal sabia que Dohm, perto dela, nem sempre sabia o que estava fazendo e isso o deixava inquieto.

— Qual seu livro preferido? — perguntou à Sephir.
 — Ah… você me pegou! Deixa eu pensar… Hum… Já sei! — Sephir levantou-se às pressas, tão rápida e drapejante que Dohm viu um pouco mais do que deveria por debaixo do vestido azul-marinho. Sephir sumiu das vistas e Dohm ficou sentado, sem jeito, sozinho; até que Sephir apareceu outra vez.
 — Vem Hhreom! — chamou e sumiu pelo corredor. Dohm levantou-se e caminhou na direção de Sephir. Parou frente a porta que estava aberta e viu um prazível quarto pequeno; e viu Sephir na ponta dos pés frente a uma estante de livros que ocupava toda a parede do quarto. — Pode entrar — ela disse. — Olha só, estes são os meus livros preferidos — Sephir apontou para a estante toda. Hhreom sorriu. — Li todos já. Eles só vão para a estante depois que eu já li. Gostou? — Dohm vislumbrou um pouco mais. O ambiente era muito agradável, luz quente, baixa, embora iluminasse o suficiente. Tudo estava arrumado, inclusive a cama que era um pouco menor que uma cama de casal.
 — Gostei sim — Dohm a olhou — Bom gosto o seu.
 — Obrigada — agradeceu e sentou-se a sua cama, segurou uma pequena almofada sobre si. — Às vezes sento aqui e fico olhando a estante. Fico pensando nas tantas histórias dos livros e das pessoas que os escreveram e das amigas dessas pessoas e das amigas das amigas dessas pessoas… Tantos universos… — Silenciaram-se. Dohm abaixou-se perto de Sephir, pois achou que seria inconveniente sentar-se à cama dela. Olhou em direção à estante e contemplou.
 — Realmente, é uma bela estante, com vários livros que contam mais do que dizem as palavras de suas páginas. As pessoas são assim também, como os livros. — Sephir agora olhava Dohm.
 — Gosto do livro que você é — segredou Sephir, fazendo Dohm voltar-se a ela com o mesmo olhar febril de outrora. Dohm sorriu, tocou o rosto macio e rosado dela.
 — Gosto do livro que você é também, Sephir. Obrigada pela tarde agradável. — Dohm levantou-se e Sephir fez o mesmo. 
 — Precisa ir né? — Sephir queria ficar mais com Dohm.
 — Sim, mas sou seu vizinho, ainda nos veremos bastante — disse. Despediram-se frente ao portão da casa de Sephir e quando, por fim, separaram-se, foram imergidos em pensamentos e sentimentos incontroláveis.